Putin quer ser recompensado por seu apoio aos EUA

Os europeus, tendo à frente os lideres Tony Blair e Jacques Chirac, se apressam em bater à porta de George W.Bush em Washington. Eles trazem uma dupla preocupação: mostrar que os Estados Unidos estão consultando os europeus (e, portanto, que eles existem) e confirmar que os europeus desempenham um papel na guerra contra o Taleban. A verdade é um pouco diferente: o jantar oferecido por Blair no domingo à noite em Londres aos dirigentes europeus demonstrou isso."Diante da guerra contra os talebans" - escreveu hoje um dos melhores analistas franceses, Alain Duhamel - " a Europa não consegue encontrar-se".As posições da Rússia são mais claras, pelo menos aparentemente.Lembremos o que aconteceu depois de 11 de setembro: Enquanto os Estados Unidos estavam sendo atacados por um desafio terrível Bush imediatamente encontrou o apoio da Rússia, que se uniu à "coalizão".Entretanto, as divergências entre a Rússia e os Estados Unidos não eram pequenas: além de 50 anos de ódio e de "Guerra Fria", os dez últimos anos foram ainda malsãos, semeados de desconfianças, de atritos, de temores (expansão da Otan, queixas dos ocidentais a respeito da Chechênia...).Poderíamo então imaginar que a Rússia iria usar de rodeios e trilhar caminhos tortuosos depois de 11 de setembro. Mas nada disso aconteceu. Naquela mesma noite, Putin telefonou a Bush e disse-lhe: "Estamos ao seu lado". O lider russo não consultou ninguém. Somente no dia seguinte ele fez uma consulta aos políticos e aos militares russos. E, dois dias mais tarde, ele confirmou seu apoio aos norte-americanos contra o Taleban.Na realidade, ele não fez uma verdadeira consulta. Apenas informou seus subordinados a respeito da posiçãao que adotou. E essa decisão é verdadeiramente inovadora: pela primeira vez, a Rússia, em vez de opor-se a uma campanha militar empreendida pelos Estados Unidos, se associa ao esforço norte-americano: o espaço aéreo russo poderá ser utilizado pelos norte-americanos.Mais ainda: o Exército norte-americano poderá usar bases na Ásia Central, isto é, em Estados que não fazem mais parte da antiga União Soviética, mas estão sempre ligados à Rússia por acordos militares.A escolha de Putin foi audaciosa: está claro que a "cultura" russa, impregnada sempre pela antiga "cultura soviética", continua hostil aos Estados Unidos. Sobretudo entre os militares. Mas também entre os políticos e na opinião pública.Convém lembrar aqui os casos de Gorbachev e de Yeltsin. Este último - cabeça louca e estômago amigo da vodca, colérico, preguiçoso, lunático - durante muito tempo gozou de verdadeiro prestígio junto ao povo russo. E por quê? Porque dava a impressão de resistir ao Ocidente.Ao contrário, Gorbachev (que dirigiu o país antes de Yeltsin) - com certeza um político não-temperamental, mas mais sério do que Yeltsin - foi violentamente rejeitado pelo povo russo (e até hoje ainda é menosprezado) porque, como dizem os russos, Gorbachev cedeu muito aos ocidentais sem receber compensações sérias.Não obstante estes precedentes, Putin escolheu o Ocidente. Parece aliás que os atentados de 11 de setembro foram apenas uma ocasião espetacular oferecida a Putin para colocar em prática sua nova diplomacia, fortemente inclinada para o lado americano.Com certeza, existem ainda pontos de atrito (como por exemplo, entre outras coisas, a questão do Tratado ABM sobre os mísseis intercontinentais, de 1972, ou o projeto do escudo antimísseis de Bush), mas a "linha geral" (como diziam os cineastas do tempo de Stalin) é clara: "integração progressiva" ao Ocidente.Por que Putin acelerou o passo? Dentro de dois anos e meio haverá eleições na Rússia. Ora, o saldo de Putin não é imenso, nem muito positivo: fadiga econômica, o atoleiro da Chechênia, uma dívida monstruosa... Portanto, para tirar o país do marasmo, ele precisa de uma ajuda muito poderosa.Uma ajuda que somente os Estados Unidos podem oferecer.Putin assume o risco: podemos lembrar o caso de outro aliado de Bush, o Paquistão, ou o general Musharraf (outrora fascista, transformado de repente em democrata na noite de 11 de setembro) chamado o alicerce essencial da coalizão.Como Putin, Musharraf jogou um "jogo pesado", ao optar pelos Estados Unidos.Um jogo ainda mais pesado que o de Putin, tendo em conta a febre islâmica que reina no grande país muçulmano e que é atiçada pelos pregadores extremistas.Putin está menos exposto às pressões islâmicas (a Rússia conta apenas com 13 milhões de muçulmanos, mais moderados).Além disso, no caso de Putin, o perigo não vem tanto das minorias muçulmanas da Rússia, quanto das atitudes mentais da população russa, e particularmente dos generais russos, para os quais, hoje como sempre, os Estados Unidos são o grande inimigo.Por isso, Putin deverá ter uma missão muito árdua quando viajar a Washington no dia 13 de novembro para se reunir com George W. Bush, na fazenda texana do presidente. Leia o especial

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