Ramil Sitdikov via Reuters
Ramil Sitdikov via Reuters

Putin reabre a Rússia, mas continua isolado para evitar a covid-19

Presidente, que vive em ‘bolha antivírus’ sem reuniões presenciais, tem até um túnel desinfetante em casa

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 04h00

MOSCOU - Os funcionários de uma sigilosa agência russa de segurança pareciam saber exatamente o que queriam quando procuraram a empresa de Olga Izranova no primeiro semestre do ano. Estavam em busca de túneis móveis que mergulham as pessoas em nuvens de desinfetante. “Disseram que o trabalho tinha de ficar pronto muito rápido”, lembrou Olga. Ela reconhece que os túneis são de eficácia limitada na pandemia do coronavírus, mas, para o seu cliente mais importante, cada proteção conta. 

O Serviço Federal de Proteção, o serviço secreto russo, ajudou a construir em torno do presidente Vladimir Putin uma bolha livre do vírus que vai muito além das medidas de proteção adotadas por seus equivalentes estrangeiros. 

Os jornalistas russos que acompanham a agenda de Putin não o veem de perto desde março. As poucas pessoas que se reúnem com ele cara a cara passam até duas semanas em uma lista de quarentena. 

O presidente ainda participa de reuniões com o alto escalão do governo, incluindo seu gabinete e seu conselho de segurança, realizadas por vídeo a partir de um cômodo simples em sua residência nos arredores de Moscou, onde o túnel desinfetante de Olga foi instalado.

O contraste entre o comportamento de Putin e o da população fica cada vez mais claro, com o risco de uma segunda onda de contágio atingir a Rússia. Em Moscou, onde as pessoas passaram o verão nos ambientes fechados de bares e restaurantes, raramente usando máscaras, o número de novos casos informados diariamente triplicou, chegando a mais de 2,3 mil nas duas semanas mais recentes.

Com a Rússia suspendendo a quarentena, Putin presidiu eventos cerimoniais que pareciam pensados para transmitir uma impressão de normalidade. Nos bastidores, porém, não havia nada de normal.

Dezenas de veteranos da 2.ª Guerra se juntaram ao presidente nas arquibancadas da Praça Vermelha, em junho, quando ele presidiu um desfile militar celebrando o 75.º aniversário da vitória soviética contra a Alemanha nazista. Antes de serem admitidos perto de Putin, os veteranos tiveram de passar duas semanas de quarentena em um resort isolado. “Saímos para caminhar, ficamos entediados, sentávamos e respirávamos o ar puro”, disse Lev Litvinov, de 100 anos.

A logística foi tão exigente que Litvinov nem chegou a participar do desfile. Ele disse que, após duas semanas de quarentena, sentiu-se mal no sinuoso caminho entre o resort e a Praça Vermelha, uma distância de 80 km. Foi conduzido então a um centro de saúde, onde passou mais uma semana. “Para nós, o mais importante é a saúde dos veteranos”, disse Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, a respeito do assunto.

A disciplina de Putin em se proteger chama a atenção porque, nos recentes comunicados ao público, seu governo praticamente declarou o vírus vencido. “Gostaria de parabenizá-los por mais essa vitória coletiva”, escreveu aos moradores de Moscou o prefeito Sergei Sobyanin, em junho, anunciando o fim da quarentena na cidade. Os salões de bares e restaurantes foram reabertos duas semanas mais tarde.

Para os críticos, a Rússia se apressou em suspender as restrições decorrentes do coronavírus para levantar o moral da população antes do referendo de 1.º de julho, que votaria emendas constitucionais que abrem a possibilidade de Putin permanecer na presidência até 2036. Quando ele anunciou em agosto que a Rússia tinha registrado a primeira vacina contra o coronavírus em todo o mundo, parecia que o país estava aplicando um último e decisivo golpe contra a pandemia.

Famílias lotaram os resorts do Mar Negro e os adultos voltaram a seus escritórios. Em todo o país, as crianças voltaram às aulas no início do ano letivo, no dia 1.º de setembro, mas Putin continuou em isolamento. Seguiu realizando a maioria das reuniões com funcionários do governo por videoconferência a partir de um cômodo de sua casa em Novo-Ogaryovo, nos arredores de Moscou. 

Peskov não respondeu aos pedidos de contato a respeito dos cuidados do presidente para se prevenir contra o coronavírus. / NYT 

 TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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