Putin seria dono de palácio digno de czar no Mar Negro?

Ex-aliado e ativistas acusam líder russo de ter gastado rios de dinheiro público em suntuosa mansão.

Tim Whewell, BBC

07 Maio 2012 | 07h52

Na encosta de uma montanha densamente arborizada com vista para a costa do Mar Negro na Rússia, foi erguido um suntuoso palácio que muitos acreditam pertencer ao líder russo Vladimir Putin, que teria usado enormes quantidades de dinheiro público para erguê-lo.

Originalmente concebida, acredita-se, como uma modesta casa com piscina, a construção agora ostenta uma magnífica fachada que lembra colunas dos palácios de czares russos construídos no século 18.

Os enormes portões de ferro do pátio são cobertos com uma águia dourada imperial. O complexo tem ainda jardins, um teatro privado, pista com capacidade para três helicópteros e acomodações para guardas de segurança.

Não é difícil encontrar, na internet, imagens de satélite e fotografias do local, assim como relatos de ativistas e operários que trabalharam nas obras.

Difícil mesmo era tentar obter informações sobre quem pagou pela construção.

Mas agora, com Vladimir Putin prestes a ser empossado para um terceiro mandato como presidente da Rússia, pela primeira vez um importante colaborador de Putin na empreitada veio a público.

Em entrevista ao programa Newsnight da BBC, Sergei Kolesnikov deu detalhes de como a mansão foi construída, seguindo especificações do líder para seu uso pessoal.

Kolesnikov, que agora trabalha na capital estoniana Tallinn após deixar a Rússia, foi por vários anos um dos responsáveis pela construção do palácio.

Ele diz que a obra representa um exemplo de "corrupção do mais alto escalão que ameaça destruir a economia do país".

Equipamento médico

Kolesnikov diz que ele estava envolvido com dois amigos de Putin - Nikolai Shamalov e Dmitri Gorelov -, em um esquema, proposto pelo próprio Putin, para fornecer novos equipamentos a hospitais russos.

Vários oligarcas russos, incluindo o dono do time inglês de futebol Chelsea, Roman Abramovich, doaram milhões de dólares para o projeto, com o fim de modernizar hospitais da Rússia.

Kolesnikov diz que importou o equipamento médico com grandes descontos, e que os milhões de dólares que sobraram foram, por sugestão de Putin, colocados em empresas offshore - sem o conhecimento dos doadores - para uso em outros projetos de investimento.

Esse fundos teriam sido usados para ajudar indústrias em dificuldades, como a construção naval. Mas uma proporção cada vez maior deles, segundo Kolesnikov, passou a ser destinada ao "Projeto Sul" - como era chamado o projeto do palácio do Mar Negro, perto da aldeia de Praskoveevka.

Kolesnikov disse à BBC que esteve em uma reunião com Putin em sua casa de campo nos arredores de Moscou quando a questão do palácio foi levantada diretamente.

Ele diz que o líder russo destacou seu poderoso vice-primeiro-ministro, Igor Sechin, para discutir detalhes com ele. Após várias reuniões com Sechin, Kolesnikow passou a coordenar os trabalhos de construção diretamente no local, onde recebia instruções de Putin para acessórios e mobiliário, passadas através do amigo e parceiro de Kolesnikov, Nikolai Shamalov.

Segundo Kolesnikov, Shamalov não questionava essas instruções: "Ele considerava que qualquer coisa que o czar decidisse, não era de nossa conta discutir".

Mas Koresnikov diz que ele começou a sentir repugnância pelas altas somas sendo gastas com o palácio, e se desentendeu com seu sócio Shamalov.

"Eu não tinha trabalhado 15 horas por dia, durante 10 anos para construir um palácio", diz ele. "Isso não me interessa."

Carta aberta

Em dezembro de 2010, Kolesnikov escreveu uma carta aberta ao então presidente russo, Dmitry Medvedev, detalhando seu envolvimento e os de outros no projeto e descrevendo suas alegações contra Putin, então primeiro-ministro.

A BBC tentou entrar em contato com Shamalov e outro ex-parceiros de Kolesnikov, Dmitri Gorelov, mas suas empresas disseram que eles não estariam disponíveis para comentar o assunto.

O porta-voz de Putin negou as acusações de Kolesnikov.

Oficialmente, o palácio pertenceu até recentemente a uma empresa da qual Shamalov era dono parcial e agora pertence a outro empresário que supostamente não está diretamente ligado a Putin.

Mas documentos obtidos por um dos poucos jornais da oposição da Rússia, Novaya Gazeta e vistos pela BBC sugerem que o Kremlin omitiu a verdade ao dizer que não teve qualquer envolvimento na construção do palácio.

Os documentos não provam que o palácio foi feito para o próprio Putin, ou que ele esteve pessoalmente envolvido em sua construção. Mas o certificado que permitiu a construção da mansão em terras do Estado foi assinado pelo chefe do Departamento para Assuntos Presidenciais, Vladimir Kozhin - que posteriormente negou saber qualquer coisa sobre o local.

Mas sinais de que Putin é o verdadeiro dono do local continuam aparecendo. Quando ativistas anticorrupção se reuniram em frente ao palácio, no ano passado, foram recebidos não só por seguranças particulares, mas também por membros uniformizados do serviço de guarda oficial do Kremlin.

Mais tarde, a empresa de segurança privada afirmou que os seus funcionários tinham simplesmente comprado os uniformes - e cartões de identidade do Kremlin - em uma loja.

Kolesnikov diz que o palácio ainda se beneficiou da construção de uma estrada que leva ao local e de uma linha de transmissão de energia elétrica, ambas financiadas com dinheiro público.

"Se fosse apenas para o amigo de Putin, Shamalov, por que o serviço de Guarda Nacional patrocinar e monitorar a construção do prédio? Por que precisaria de três heliportos?"

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