Putin tenta restaurar poderio militar

Potência da Guerra Fria, país investe para reverter processo de decadência do Exército iniciado com o fim da URSS

Gabriella Dorlhiac, O Estadao de S.Paulo

18 de fevereiro de 2008 | 00h00

Em setembro, caças da Força Aérea britânica interceptaram oito aviões militares russos que voavam no do espaço aéreo da Otan. Em agosto, jatos americanos foram mobilizados quando dois bombardeiros da Rússia se aproximaram da base naval dos EUA em Guam. No sábado, dois bombardeiros russos aproximaram-se de um porta-aviões americano no Oceano Pacífico e tiveram de ser escoltados para longe por caças dos EUA.Episódios como esses se tornaram cada vez mais comuns nos últimos meses e fazem parte da estratégia russa para recuperar sua influência global. As demonstrações de força, no entanto, ocultam um grande desafio para a Rússia: a potência militar da Guerra Fria hoje luta para reerguer-se do colapso de suas Forças Armadas nos anos 80 e 90.Com os cofres cheios novamente - graças em grande parte à alta dos preços do petróleo -, o presidente russo, Vladimir Putin, pôde em seus dois mandatos voltar a investir na reforma militar do país.E esses investimentos não foram pequenos. Desde 2000, o orçamento militar subiu de US$ 5,9 bilhões para US$ 35,2 bilhões. Em junho de 2006, o líder russo anunciou ainda um projeto de US$ 185 bilhões para o rearmamento da Rússia até 2015. Patrulhas aéreas e navais, suspensas havia anos por falta de recursos (para manutenção dos equipamentos e até mesmo para abastecer caças) foram retomadas no ano passado.O grande problema da Rússia, no entanto, é que os investimentos ainda não conseguiram reverter as conseqüências de anos de profundo declínio de suas Forças Armadas. "Em 1986, quando Mikhail Gorbachev chegou ao poder, ele encontrou um Exército improdutivo, que começava a enfrentar uma grande decadência. Esse colapso acelerou-se no governo de Boris Yeltsin. Os soldados não tinham sequer comida, eram obrigados a ter mais de um emprego", afirmou ao Estado, por telefone, o especialista em Rússia da Universidade do Texas Zoltan Barany. Segundo Barany, autor do livro Democratic Breakdown and the Decline of the Russian Military (na tradução literal, Colapso Democrático e o Declínio Militar Russo), ao assumir a presidência, Yeltsin exigiu das Forças Armadas a redução do número de soldados (na época, cerca de 3 milhões) e a retirada das tropas dos ex-países da URSS. Ambas as exigências foram cumpridas. Em troca, o líder russo permitiu que o comando militar fizesse o que bem entendesse, fechando os olhos para ações de corrupção sem precedentes. "Há um episódio, do fim os anos 90, no qual 80 navios foram vendidos clandestinamente para a Índia e a Coréia do Norte. Parte do equipamento militar russo simplesmente desapareceu", disse Barany.O símbolo da decadência do poderio militar russo foi o naufrágio do submarino nuclear Kursk - que afundou em agosto de 2000 após uma explosão, matando seus 118 tripulantes.A maior tragédia para as Forças Armadas russas não foi apenas a perda ou decadência de seus equipamentos, mas sim a fuga de seu capital humano qualificado. "Em 1991, após o fim da União Soviética, a maioria dos oficiais deixou o Exército o mais rápido possível. Os que ficaram não tinham qualificação para qualquer outro tipo de emprego", afirmou o especialista, lembrando que, na década de 90, coronéis do Exército ganhavam menos do que um motorista de ônibus.Os péssimos soldos, os violentos abusos contra recrutas, os baixos índices de natalidade e o aumento das oportunidades econômicas no país transformaram a carreira militar de ótima opção profissional em último recurso. "Os russos pagam subornos para fugir do serviço obrigatório. No primeiro anos, os recrutas são brutalizados pelos soldados mais graduados", afirmou o especialista em Rússia da Universidade Estadual de San Diego, Mikhail Alexseev. A evasão do serviço militar tornou-se uma indústria no país, onde pais desesperados subornam quem for preciso para livrar os filhos de abusos quase certos. "Apenas de 9% a 10% dos jovens russos servem no Exército. Em 2005, dos jovens que se apresentaram, 70% receberam dispensa médica, 45% nunca tiveram um emprego, 25% não terminaram a escola e 5% tinham ficha criminal", disse Barany. A baixa qualidade de seus soldados dificulta ainda mais o objetivo russo de acabar com o serviço obrigatório e ter um Exército profissional. As primeiras iniciativas para testar a viabilidade dos contratos militares não deram certo. Inúmeros soldados não renovaram seu contrato, em grande parte pelos baixos soldos e poucos benefícios. Alexseev aponta ainda outro grande problema na questão do capital humano. "As Forças Armadas russas não têm pessoas com boa formação para treinar os soldados. O problema não é ter bons tenentes, mas sim bons sargentos, que são os que treinam os soldados."Tanto Alexseev quanto Barany concordam que, para que a reforma militar russa dê certo, é preciso antes que Moscou analise o tipo de ameaça que pode sofrer e com isso decida como será seu novo Exército. "Os militares russos ainda acreditam que o país terá de lutar a 3ª Guerra", explicou o professor da Universidade do Texas. A história recente, no entanto, deixou claro que as Forças Armadas russas devem capacitar-se para outro tipo de conflito: a guerra de guerrilha. A dificuldade dos militares russos de derrotar os rebeldes chechenos no conflito que começou em 1999 demonstrou a fragilidade do Exército. "O ideal seria a Rússia ter cerca de 800 mil soldados muito bem treinados para combater guerrilhas", disse Alexseev.As tentativas de reforma, no entanto, parecem esbarrar na vontade política do governo. O próprio Putin, que chegou ao poder prometendo reformar o Exército, não obteve grandes progressos. "A principal base de apoio de Putin são os militares. E eles são completamente contra a reforma. Não querem perder influência, poder e cargos."A pouco menos de um mês de deixar a presidência, Putin usa a força militar como massa de manobra para sua política interna. "Um dos principais motivos da alta popularidade de Putin é que ele permitiu que a Rússia voltasse a ser respeitada como uma grande potência. Portanto, é importante manter a percepção de orgulho e poder", afirmou Alexseev.

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