Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Mikhail Klimentyev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

Putin quer usar Copa do Mundo para abafar crimes de guerra na Síria, dizem ativistas

Human Rights Watch, jogadores profissionais no exílio e ONGs sírias estão divulgando alertas sobre o envolvimento do Kremlin no conflito

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 06h29

GENEBRA - Ativistas denunciam a tentativa do Kremlin de usar a Copa do Mundo para abafar os crimes de guerra cometidos pelo governo de Vladimir Putin, maior aliado do presidente sírio, Bashar Assad. Em uma campanha lançada nesta terça-feira, 22, a entidade Human Rights Watch (HRW) pede que líderes internacionais evitem o Mundial, que começa em menos de um mês, até que o mandatário russo mude sua postura. 

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"Os russos fornecem armas, apoio militar e cobertura diplomática ao governo sírio, apesar das evidências de que essas autoridades deliberadamente atacam civis desde 2013", disse a entidade. "Ao receber a Copa, a Rússia está cortejando a opinião pública mundial e buscando respeito", disse Kenneth Roth, diretor-executivo da HRW. "Líderes internacionais devem sinalizar a Putin que, se ele não mudar de política sobre as atrocidades na Síria, não estarão com ele na sala VIP dos estádios."

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Nas últimas semanas, governos como o do Reino Unido, Islândia, Suécia e Polônia já indicaram que não enviarão seus representantes ao evento. 

Segundo a HRW, ataques aéreos conjuntos de Síria e Rússia afetaram escolas, hospitais e mataram centenas de civis. Em Alepo, essas ações foram qualificadas como "crimes de guerra", com o uso de armas proibidas ainda do período soviético. 

"A Rússia continua a oferecer armas ao governo sírio, apesar das evidências de crimes de guerra e contra a humanidade", ressaltou a entidade, acrescentando que Moscou é responsável por 79% das exportações militares ao governo de Assad. 

"A abertura da Copa vai ocorrer sob o pano de fundo de uma violação de direitos humanos persistente e severa na Síria, onde civis continuam a enfrentar riscos de vida, uso de armas proibidas e restrições de ajuda humanitária", alertou a HRW.

"Líderes autocráticos frequentemente buscam sediar eventos esportivos populares como forma de apresentar uma imagem positiva para o resto do mundo", disse Roth. "Líderes mundiais não devem permitir que eventos esportivos cubram um padrão de atrocidades na Síria", destacou. "Essa não é a hora de se unir a eventos que lustram as credenciais dos anfitriões, enquanto as forças russas estão ajudando ataques contra civis."

Segundo Roth, os russos ainda se lançaram em uma campanha para encobrir politicamente e nos fóruns diplomáticos qualquer tipo de investigação contra Assad. Apenas no Conselho de Segurança da ONU, Moscou vetou 12 resoluções para proteger o regime de Damasco, impedindo inclusive a abertura de investigações sobre o uso de armas químicas ou o envio de informações ao Tribunal Penal Internacional. 

"A imagem de uma superpotência confiante e moderna que o Kremlin tenta projetar ao sediar a Copa é incompatível com os crimes que a Rússia subscreve na Síria", disse Roth. "Ninguém deve permitir que relações públicas no esporte cubram os abusos vividos pelos sírios nas mãos de seu regime e apoiado pelo aliado russo", completou. 

Cessar-fogo

A pressão contra Putin também vem de ativistas sírios. Em um apelo lançado nesta semana, ONGs da Síria solicitaram que o russo e outros líderes internacionais cheguem a um acordo de cessar-fogo antes do início da Copa do Mundo. 

O grupo de ativistas que passou a se chamar "Nós Existimos" alertou que 300 mil sírios foram mortos desde o último Mundial. "A guerra continua a destruir vidas", alertou Bassam Al-Ahmad, diretor-executivo da entidade Sírios pela Verdade e Paz, uma das ONGs da aliança.  

Outra iniciativa ainda lançou uma petição internacional para que o cessar-fogo seja negociado antes do dia 14 de junho. O projeto é da Sawa Diaspora, uma equipe formada por jogadores no exílio. "A Copa do Mundo pode ser um instrumento positivo", defende a petição dos jogadores profissionais.

 

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