Putin vai à Crimeia no 'Dia da Vitória'

Presidente russo usa data histórica da vitória sobre a Alemanha nazista para selar anexação da península que se desligou da Ucrânia

Neil Macfarquhar, The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2014 | 10h22

MOSCOU - Selando a anexação da Crimeia com sua chancela pessoal, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, foi ao porto de Sebastopol ontem, onde aproveitou as comemorações do aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista para afirmar que Moscou tem o direito de assumir o controle da península do Mar Negro.

Nos últimos dez anos, Putin transformou o Dia da Vitória numa celebração do renascimento do poder e do nacionalismo russo. Com a visita a Sebastopol, no sudoeste da Crimeia, sede histórica da frota russa no Mar Negro, ele expressou uma forte manifestação do seu objetivo de reviver a Rússia como potência global.

Em seu discurso, Putin fez alguns acenos à história de Sebastopol: o fato de ter sido batizada por Catarina, a Grande, há 230 anos; os 225 dias de sangrenta ocupação nazista da cidade; e a volta à Rússia, em março.

"Acho que 2014 será também um ano importante na história de Sebastopol e do nosso país como um todo, como o ano em que as pessoas que moram aqui decidiram unir-se à Rússia, confirmando desse modo sua fé na memória histórica dos nossos antepassados", afirmou Putin.

"Há muito trabalho pela frente, mas nós superaremos todas as dificuldades porque estamos unidos e isso significa que nos tornamos ainda mais fortes."

A anexação provocou a mais alta tensão entre a Rússia, EUA e Europa desde a Guerra Fria. Putin mencionou que o território pertenceu durante muito tempo à Rússia e a anexação, em março, foi a correção de um erro histórico. Em março, os separatistas da Crimeia, apoiados por militares russos, organizaram um plebiscito no qual a maioria dos habitantes, muitos deles de etnia russa, escolheu o governo de Moscou.

O Ministério do Exterior da Ucrânia emitiu imediatamente um comunicado protestando contra a visita. Nele, Putin foi acusado de ignorar o direito internacional, a exigência da comunidade internacional de que a Rússia não ocupasse a Crimeia e um tratado entre a Rússia e a Ucrânia que estabelecera que ambos os países devem respeitar suas fronteiras.

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Anders Fogh Rasmussen, considerou a visita de Putin "inadequada".

No porto de Sebastopol, a versão naval do desfile do Dia da Vitória foi realizado com dez navios de guerra ancorados. Antes que Putin falasse, imagens de TV o mostraram a bordo de uma modesta lancha branca percorrendo o porto.

Ao aproximar-se de cada navio de guerra, ele gritava ao microfone: "Alô, camaradas!" e o pessoal, perfilado no deck em seu uniforme azul, respondia com uma saudação ritual ao seu comandante-chefe, seguida por um vigoroso "hurrah!"

A visita de Putin deu-se horas depois de um imponente desfile do Dia da Vitória na Praça Vermelha em Moscou. O evento anual ocorreu sob os olhares atentos do mundo em razão das tensões em torno do futuro da Ucrânia.

Na parada, o tributo à anexação da Crimeia não foi nada sutil.

O primeiro veículo, um blindado para transporte de tropas da brigada de fuzileiros navais do Mar Negro, carregava uma enorme bandeira da Crimeia.

Cerca de 11 mil soldados e 150 veículos militares, de tanques a lançadores de mísseis balísticos intercontinentais, percorreram a praça. No céu, 69 aviões sobrevoaram a praça, simbolizando os 69 anos desde a vitória sobre a Alemanha nazista.

Putin disse que a comemoração representava tudo o que torna a Rússia forte. "Essa é a festa do triunfo do invencível poder do patriotismo", declarou.

No leste da Ucrânia, comemorações do Dia da Vitória ocorreram na cidade de Donetsk. Os cartazes afixados em toda a cidade mostravam bandeiras vermelhas e medalhas militares soviéticas, elogiando "os heróis de Donbass", como a região é conhecida.

O Dia da Vitória sempre foi uma festa complicada na Ucrânia, mesmo em circunstâncias normais, porque os ucranianos combateram de ambos os lados. Este ano, Kiev desencorajou grandes desfiles em razão da preocupação com uma explosão de violência.

No sudeste, porém, não foi possível evitar episódios violentos. Homens armados disputaram com forças oficiais o controle de uma delegacia na cidade de Mariupol. Quatro pessoas ficaram feridas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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