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Pyongyang celebra fundador após retomar programa nuclear

Coreia do Norte comemora nascimento do pai do ditador Kim Jong-il; sanções ao país podem ter efeito limitado

Agências internacionais,

15 de abril de 2009 | 09h29

A Coreia do Norte celebra nesta quarta-feira, 15, o nascimento do fundador do país, Kim Il-Sung, pai do atual líder norte-coreano Kim Jong-il, em meio à pressão internacional por conta das ameaças do país de retomar o seu programa nuclear. Na terça-feira, Pyongyang disse que considera a negociação sobre o fim de seu programa atômico desnecessária e boicotará o diálogo internacional sobre o tema. O país também anunciou que reativará o reator de Yongbyon e não vai mais cooperar com os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), expulsando-os do país.

 

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Segundo informações do regime, dezenas de milhares de pessoas se reuniram em Pyongyang para visitar o mausoléu de Kim Il-Sung. Durante a "Festa do Sol", o governo distribui alimentos adicionais para a população, vítima de uma escassez alimentar crônica, assim como doces para as crianças. Porém, o endurecimento de sanções contra o país não deve prejudicar o comércio da Coreia do Norte com sua aliada China, mas a crise global está afetando a isolada nação comunista, que disse estar abandonando as conversações sobre seu programa nuclear.

 

A decisão é uma retaliação contra a resolução do Conselho de Segurança da ONU, aprovada na segunda-feira, condenando o lançamento de um foguete norte-coreano na semana passada. Em comunicado, a chancelaria norte-coreana afirmou que pretende construir um reator de água leve para produzir energia e usará o espaço de modo pacífico contra "a tirania da ONU", com base em seu "direito soberano". "Produziremos nosso próprio reator e reabriremos instalações que foram fechadas", afirma o comunicado oficial. Desde 2003, cinco países estão envolvidos nas negociações para a desnuclearização da Coreia do Norte: Coreia do Sul, EUA, China, Rússia e Japão.

 

O Conselho de Segurança da ONU exigiu o endurecimento das sanções já existentes contra a Coreia do Norte. Mas a redução do preço das commodities pode ser mais dolorosa para o regime de Pyongyang do que as sanções, que afetarão apenas certas empresas que negociam equipamento militar. "As sanções não terão grande efeito, elas não mudarão suas ações", disse Shi Yinhong, professor de relações internacionais na Universidade Renmin, em Pequim. "Elas não terão impacto no comércio com a China, que é basicamente de grãos e materiais básicos. As sanções terão alguma influência sobre bens de luxo, mas apenas um pequeno impacto sobre o volume total de comércio", acrescentou Shi.

 

O comércio anual da Coreia do Norte com a China é de US$ 2 bilhões, 10% do PIB anual norte-coreano. Repetidamente a China pediu moderação, enquanto Pyongyang preparava o que garantiu ser o lançamento de um foguete para colocar um satélite de comunicações em órbita, mas que, segundo os EUA, Japão e Coreia do Sul, teria sido um míssil de longo alcance. No entanto, Pequim relutou em adotar uma posição mais dura, temendo perder sua influência em Pyongyang e preocupado com os riscos políticos e econômicos em caso de colapso da Coreia do Norte.

 

O comércio entre os dois países sofreu uma redução de 3% nos primeiros dois meses do ano, depois que a queda dos preços dos metais fechou um dos poucos canais de exportação norte-coreana. A Coreia do Norte lucrou nos últimos anos com o elevado preço dos minérios, ampliando sua exportação de zinco, chumbo e ferro para a China. A Coreia do Norte teria depósitos de minérios no valor de US$ 2 trilhões, segundo estimativa da Corporação de Recursos da Coreia do Sul. Mas problemas de infraestrutura e uma rede elétrica defasada dificultam a mineração e a exportação dos minérios.

 

Coreia do Sul

 

A Coreia do Sul disse nesta quarta-feira que em breve anunciará planos para interceptar um suposto comércio ilícito de armas para Coreia do Norte. Numa medida que deve agravar as sanções, Seul deve formalizar nos próximos dias sua adesão às atividades, lideradas pelos EUA, de interceptação de carregamentos suspeitos de conterem peças ou equipamentos para armas de destruição em massa. Pyongyang diz que tal ação seria considerada uma declaração de guerra.

 

O plano, chamado Iniciativa de Segurança da Proliferação, já conta com a participação de 94 países. Ele permitiria que a Coreia do Sul abordasse navios norte-coreanos em suas águas territoriais, quando houvesse suspeita de transporte de material ilícito.

 

Em sua declaração após o lançamento do foguete, o Conselho de Segurança da ONU não falou em novas sanções contra o regime, mas cobrou uma implementação mais rígidas das punições impostas ao país em 2006, por causa testes com um míssil de longo alcance e de uma bomba atômica.

 

A Coreia do Norte há anos usa a ameaça militar para chamar a atenção do mundo e obter concessões de potências regionais. Analistas dizem que, ao usar tal cartada no começo do governo de Barack Obama nos EUA, o país o força a tomar decisões cruciais sobre como conduzirá suas relações com Pyongyang.

 

Para Ken Boutin, especialista em segurança da Escola de Estudos Internacionais e Políticos da Universidade Deakin (Austrália), o governo Obama "não pode se dar ao luxo de ignorar isso". "Os norte-coreanos tradicionalmente são muito afeitos ao confronto em sua política externa e têm buscado gerar influência ao sustentar posições aparentemente inflexíveis, das quais podem posteriormente recuar quando recebem os incentivos adequados", disse Boutin por e-mail à Reuters.

 

A secretária norte-americana de Estado, Hillary Clinton, criticou a expulsão dos inspetores da ONU, qualificando-a como uma provocação desnecessária, mas disse que seu país está disposto a dialogar. "Obviamente esperamos que haja uma oportunidade de discutir isso não só com nossos parceiros e aliados, mas eventualmente com os norte-coreanos", disse Hillary em Washington.

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