Pyongyang declara nulo armistício de 1953 com Seul

Governo da Coreia do Norte também deixa de atender dois telefonemas do Sul em linha direta que administra trégua

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2013 | 02h07

A Coreia do Norte declarou ontem nulo o armistício que colocou fim à Guerra da Coreia em 1953 em resposta à continuidade dos exercício militares conjuntos dos EUA e da Coreia do Sul, que ontem entraram em uma nova fase. O governo de Pyongyang também deixou de atender dois telefonemas de Seul na linha direta utilizada para gerenciar o armistício.

Mas pelo menos um outro canal de comunicação continuou em operação e, segundo a agência Associated Press, foi utilizado para autorizar a entrada na Coreia do Norte de centenas de sul-coreanos que trabalham no complexo industrial de Kaesong, o principal símbolo da tentativa de cooperação econômica entre os dois países. Localizado a dez km da fronteira e em operação desde 2004, o local tem pouco mais de cem empresas da Coreia do Sul, que empregam milhares de norte-coreanos em suas linhas de montagem.

A normalidade no local foi mantida apesar da escalada na retórica belicista de Pyongyang ao longo da semana passada, em razão das manobras militares e da aprovação de novas sanções contra o país pelo Conselho de Segurança da ONU, na quinta-feira.

A tensão na região está no patamar mais intenso desde 2010, quando a Coreia do Norte bombardeou uma ilha da Coreia do Sul. Pyongyang ameaçou abandonar todos os acordos de não agressão com Seul e realizar "ataques nucleares preventivos" contra os EUA, país que lutou ao lado do Sul na Guerra da Coreia.

Apesar de não haver indícios de que a Coreia do Norte possa cumprir suas ameaças, o programa nuclear norte-coreano registrou progressos desde o ano passado. Em dezembro, Pyongyang conseguiu colocar um satélite em órbita utilizando um foguete similar aos utilizados no disparo de armas nucleares. Para os EUA e seus aliados, a operação foi um teste disfarçado de míssil balístico intercontinental, proibido por resoluções da ONU.

Em 12 de fevereiro, a Coreia do Norte realizou seu terceiro teste nuclear desde 2006, com a explosão de uma bomba menor, mais potente e mais leve.

As manobras militares dos Estados Unidos e da Coreia do Sul repetem-se anualmente e estão entre os maiores exercícios do gênero no mundo. As deste ano começaram em 1.º de março e devem durar dois meses.

Ontem teve início a operação Key Resolve, na qual 10 mil soldados sul-coreanos e 3 mil americanos têm de responder a cenários de guerra criados por computadores.

Segundo a agência de notícias Associated Press, esta é a primeira vez em que a Key Resolve será comandada por militares da Coreia do Sul, dentro do processo de transferência do controle das forças de guerra para Seul, que deve estar concluído em 2015 - os Estados Unidos mantêm 28 mil soldados no país. Paralelamente, continuam as manobras batizadas de Foal Eagle, da qual participam quase 200 mil sul-coreanos e 10 mil americanos.

Do outro lado da fronteira, a Coreia do Norte também realiza os próprios exercícios militares e mantém a população em estado de alerta máximo. A propaganda do regime liderado há três gerações pela família Kim sustenta que as manobras são uma preparação para a invasão da Coreia do Norte pelos ex-adversários no conflito terminado em 1953.

O discurso bélico cumpre a função de manter a coesão interna diante de uma ameaça externa e fortalecer a liderança de Kim Jong-un, o jovem de 30 anos que assumiu o poder em dezembro de 2011, depois da morte de seu pai, Kim Jong-il.

Analistas acreditam que o objetivo da retórica bélica é tentar forçar os Estados Unidos a negociar com o regime de Kim Jong-un e a dar garantias de que o país não será invadido.

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