Pyongyang desafia EUA e lança satélite

Washington considera lançamento como teste real de míssil balístico, em violação a resoluções da ONU, e promete responder na ONU

TÓQUIO, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h07

A Coreia do Norte colocou em órbita ontem um satélite, apesar das sanções internacionais, mostrando a evolução do programa de armas do país. O foguete lançado, o Unha-3, usou uma tecnologia semelhante à de um míssil de longo alcance, o que levou EUA, Coreia do Sul e Japão a descreverem o lançamento como um teste real de um míssil balístico, uma violação de resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Autoridades em Seul, Tóquio e Washington prometeram uma resposta dura. Tommy Vietor, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, disse que trabalharia na ONU para buscar a "ação apropriada". O incidente ilustra o que analistas consideram o risco de segurança representado por Pyongyang.

O governo norte-coreano está economicamente isolado - só tem a China como aliado. As sanções da ONU dificultam para a Coreia do Norte lavar dinheiro sujo, importar artigos de luxo e adquirir material bélico, mas não conseguem impedir lançamentos de mísseis, testes nucleares ou comércio de armas.

Segundo analistas, a Coreia do Norte faz tudo isso apoiando-se em tecnologia doméstica e ilegalmente importada, em parte, porque não teme uma nova condenação internacional. O país diz que seu programa de lançamento de satélites não está ligado à tecnologia de armas, mas sim à pesquisa espacial, o que é permitido por tratados internacionais.

Autoridades americanas consideram Pyongyang seu desafio diplomático mais vexatório. Nos últimos 20 anos, vários governos pressionaram a Coreia do Norte. A abordagem tentada pelo presidente Barack Obama é descrita como de "paciência estratégica" - basicamente, usar sanções e pressionar por uma mudança de comportamento ruim com a promessa de contrapartidas. Os republicanos, no entanto, dizem que o lançamento deve levar a Casa Branca a repensar essa estratégia.

O senador democrata John Kerry, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, afirmou que o lançamento foi "provocativo", "desestabilizador" e violava resoluções do Conselho de Segurança. "Ele só conseguirá isolar ainda mais a Coreia do Norte", disse.

O desenvolvimento de armas é o projeto favorito da Coreia do Norte, usado para mostrar a força de um país às voltas com escassez de alimentos, banimento de dissidentes e envio de criminosos políticos a campos de prisioneiros. Uma autoridade sul-coreana disse que o país vizinho gastou entre US$ 2,8 bilhões e US$ 3,2 bilhões em seu programa nos últimos 14 anos.

Até ontem, porém, os gastos tinham dado pouco retorno. Quatro testes anteriores com foguetes de longo alcance e mísseis - três deles com a finalidade declarada de colocar um satélite em órbita - fracassaram.

Ontem, tudo saiu como planejado. O foguete de três estágios viajou rumo ao sul, passando por China, Coreia do Sul e Okinawa. Um estágio do propulsor, conforme o planejado, caiu no Mar Amarelo. Outro, caiu perto das Filipinas. O terceiro e último estágio carregava a carga - um satélite denominado Kwangmyogsong-3 -, que foi deixada em órbita e depois detectada por sistemas internacionais de rastreamento.

A mídia estatal norte-coreana informou que o satélite entrou em órbita 9 minutos e 27 segundos após o lançamento. Especialistas advertiram que a Coreia do Norte ainda precisa superar vários obstáculos para poder ameaçar os EUA com um míssil balístico intercontinental. Ela terá de miniaturizar uma arma nuclear, deixando-a pequena o bastante para ser montada no foguete, e aprimorar a tecnologia que permita que o dispositivo volte à atmosfera vindo do espaço.

Salto. Depois do fracasso do último lançamento norte-coreano, em abril, o Conselho de Segurança da ONU condenou a tentativa e exigiu que a Coreia do Norte cancelasse novos lançamentos. Agora, a ONU pode emitir uma declaração similar, mas especialistas em Seul e Washington advertem que Pequim - aliado de Pyongyang -, provavelmente, bloqueará novas sanções.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China disse ontem que Pequim "lamenta" que a Coreia do Norte tenha feito o lançamento. Ele conclamou as "partes relevantes" a manterem a calma e trabalharem juntas pela paz e pela estabilidade na região.

Em reunião realizada em julho, em Cingapura, com vários especialistas americanos e autoridades de Pyongyang, os norte-coreanos disseram que queriam um entendimento com Washington, mas também sentiam que tinham cacife para seguir adiante. "Eles deram um pequeno salto", disse Joel Wit, ex-negociador nuclear americano que participou das reuniões. "Sentem que estão fazendo progresso (no programa de armas) e conseguem se safar de qualquer sanção."

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