Pyongyang exibiu mísseis falsos, dizem analistas

Parada militar teria foguetes com peças que não se encaixam e revestimento seria fino demais para suportar atrito com o ar

TÓQUIO , O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2012 | 03h02

Analistas que estudaram fotos de mísseis norte-coreanos exibidos recentemente num opulento desfile militar dizem que as armas eram falsas. A avaliação levanta novas dúvidas a respeito das afirmações feitas pelo país sobre sua capacidade militar.

Desde o recente fracasso no lançamento de um foguete, o alto escalão militar de Pyongyang fez várias declarações vangloriando-se de seus armamentos. Na quarta feira, o vice-marechal Ri Yong-ho afirmou que seu país é capaz de derrotar os Estados Unidos "com um só golpe". E, na segunda feira, a Coreia do Norte prometeu "medidas especiais" que reduziriam o governo de Seul a cinzas em minutos.

As armas exibidas no dia 15 parecem ser uma mistura de peças de foguetes de combustível líquido e sólido que nunca funcionariam juntas. Ondulações no revestimento dos mísseis sugerem que o metal seria fino demais para resistir ao voo. Cada míssil era um pouco diferente dos demais, embora todos fossem supostamente do mesmo modelo. Eles nem mesmo se encaixam nos lançadores nos quais foram exibidos.

"Não resta dúvida de que os mísseis nada tinham de verdadeiros", escreveram Markus Schiller e Robert Schmucker, da empresa alemã Schmucker Technologie, num estudo publicado recentemente no site Armscontrolwonk. "Ainda não sabemos se isso foi intencional para confundir os analistas estrangeiros ou se os projetistas simplesmente apresentaram um trabalho malfeito."

Os mísseis, modelo KN-08, foram transportados nos maiores veículos de lançamento já revelados pela Coreia do Norte. Pyongyang conferiu a eles um destaque especial ao apresentá-los no fim do desfile, que representou o encerramento de semanas de comemorações do 100.º aniversário do fundador do país, Kim Il-sung.

A exibição dessas armas provocou inquietação internacional. Os mísseis pareciam novos, projetados para ataques de longo alcance. Além de desenvolver armas nucleares, a Coreia do Norte é suspeita de tentar há meses lançar um míssil balístico intercontinental capaz de atingir os EUA.

Washington afirma que o fracasso do lançamento norte-coreano em 13 de abril foi uma tentativa de testar a tecnologia de mísseis, enquanto Pyongyang sustenta que o lançamento era parte de uma missão científica.

Falhas. Mas, após analisar fotos que mostravam os foguetes mais detalhadamente, Schiller e Schmucker, cuja empresa presta consultoria à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em questões relacionadas a mísseis, defendem que os modelos falsos exibidos indicam que a Coreia do Norte estaria longe de construir um míssil.

"Ainda não há provas de que a Coreia do Norte tenha de fato um míssil funcional", concluíram eles. Ainda de acordo com os analistas, o desfile foi uma "precária atração de circo" e a Coreia do Norte pode não estar obtendo progressos expressivos para armar um míssil balístico com uma ogiva nuclear.

A Coreia do Norte tem um histórico pouco animador envolvendo foguetes. Os quatro lançamentos feitos desde 1998 - dos quais três foram anunciados como lançamentos de satélites - terminaram em fracasso.

Embora a Coreia do Norte exagere com frequência ao descrever as próprias capacidades militares, os mísseis exibidos este mês podem ser um presságio de novas armas que o regime ainda esteja desenvolvendo.

David Wright, físico ligado à Union of Concerned Scientists que já escreveu muito a respeito do programa de mísseis da Coreia do Norte, disse acreditar que os KN-08 podem ser "representações um pouco desajeitadas de um míssil ainda em desenvolvimento".

Wright destacou que os primeiros sinais que chegaram ao mundo exterior a respeito do míssil norte-coreano Taepodong-2, de longo alcance - cujo projeto serviu como base para o novo foguete que fracassou -, foram modelos falsos vistos pela primeira vez em 1994, 12 anos antes de um protótipo ser de fato testado na plataforma de lançamento.

"Para compreender se há de fato um programa real de desenvolvimento de mísseis, estamos tentando descobrir se os modelos falsos fazem sentido enquanto projeto para um míssil real", disse ele. "Não sabemos ao certo se o alcance do míssil justificaria o investimento dos recursos e esforços norte-coreanos."

Futuro. Theodore Postol, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e ex-conselheiro científico do Comando de Operações Navais dos EUA, disse que o projeto do Taepodong-2 continua sendo a ameaça mais concreta para o futuro - embora esse modelo também precise de aproximadamente mais dez anos de pesquisas - e os KN-08 seriam apenas um despiste.

"Acredito que os mísseis são falsos e não representam nem mesmo um simulacro de modelos existentes de mísseis", disse ele. "A fabricação de um míssil como o KN-08 exigiria um esforço técnico autônomo gigantesco. Com a economia do país em estado tão precário, os norte-coreanos só seriam capazes de obter algo do tipo se recebessem o míssil de presente."

O cientista americano destacou ainda que um míssil parecido desenvolvido pelos americanos, o Minuteman III, exigiu "décadas de experiência em motores de foguetes e imensas quantidades de capital financeiro, intelectual e tecnológico". / ASSOCIATED PRESS

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