Pyongyang fará teste nuclear, acusa Seul

Imagens de satélite mostram túnel sendo escavado em base, procedimento usado para preparar o lançamento, segundo a Coreia do Sul

CLÁUDIA TREVISAN , LISANDRA PARAGUASSU , ENVIADAS ESPECIAIS, PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2012 | 03h03

Seul suspeita que a Coreia do Norte esteja preparando seu terceiro teste nuclear. Segundo a imprensa local, a inteligência sul-coreana chegou a essa conclusão após a análise de imagens de satélite que mostram um novo túnel sendo escavado num ponto de teste nuclear em Punggye-ri. De acordo com especialistas, os norte-coreanos enchem os túneis com terra para medir a potência da explosão e conter o material nuclear dentro do buraco.

Milhares de norte-coreanos se reuniram ontem no centro de Pyongyang para um ato de devoção à família Kim, que há três gerações comanda o país em um regime estalinista dinástico. A multidão saudou a inauguração de um gigantesco mosaico com o rosto de Kim Jong-il, colocado ao lado do de seu pai, Kim Il-sung, o fundador da Coreia do Norte, venerado pelo povo.

Ao mesmo tempo em que reafirmaram a lealdade aos dois líderes mortos, os participantes prometeram união em torno de Kim Jong-un, o herdeiro que assumiu o comando da Coreia do Norte em dezembro, depois da morte de seu pai, Kim Jong-il.

Entre as faixas estendidas em meio à multidão estavam "Vamos dar a vida pelo Comitê Central do Partido dos Trabalhadores e o camarada Kim Jong-un" e "Vamos fortalecer a união em torno do estimado líder camarada Kim Jong-un".

Com menos de 30 anos, o novo comandante terá uma semana decisiva no processo de consolidação de seu poder e reafirmação da condição que é sua principal fonte de legitimidade: ser neto de Kim Il-sung.

O primeiro passo será dado amanhã, quando conferência do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte deverá aprovar sua indicação para o cargo de secretário-geral da legenda, completando o processo de transição iniciado em dezembro.

No domingo, Kim Jong-un presidirá a cerimônia do centenário de nascimento do avô, a maior celebração do país desde sua fundação, em 1948. E, em algum momento até o dia 16, ele autorizará o lançamento de um satélite de observação terrestre, desafiando a comunidade internacional, segundo a qual o ato é uma violação de resolução do Conselho de Segurança da ONU.

A resolução proíbe a Coreia do Norte de realizar testes ou disparos que usem tecnologia de mísseis balísticos.

Os dois primeiros estágios do Unha-3 têm origem no míssil Taepodong-2, testado em 2006. A Coreia do Norte sustenta que o lançamento tem caráter civil e um tratado internacional garante seu direito à exploração pacífica do espaço.

Os norte-coreanos já estão pagando tributo a Kim Il-sung com peregrinações à casa onde ele nasceu, transformada em museu em Pyongyang.

Ontem, o Estado e outros meios de comunicação estiveram no local em visita organizada pelo governo.

Toda a narrativa apresentada pela guia oficial, Kim Won-gyong, fortalece a imagem de um líder benevolente, que realizou sacrifícios incomparáveis pelos norte-coreanos.

"O mais importante é o fato de que ele libertou o país da ocupação japonesa e construiu uma Coreia socialista", afirmou a guia. Sua origem camponesa pobre também é ressaltada constantemente pela população.

"Pai" e "sol" são as palavras mais associadas ao "grande líder", que continua a ser chamado de presidente da Coreia do Norte, 18 anos depois de sua morte. "O grande camarada Kim Il-sung restaurou o país, lutou pela felicidade de todos e tratou os coreanos como seus filhos", disse Ri Ki-won, um dos visitantes do museu. Como todos os norte-coreanos no local, usava um broche com a imagem do líder.

Casa e comida. Quando a reportagem perguntou quanto ele ganhava, foi evasivo. "Os coreanos não se preocupam com salário porque o Estado dá tudo: alimento, casa, educação e saúde". Casa, saúde e educação, realmente, são gratuitos, mas comer é algo que nem sempre é fácil para os norte-coreanos, especialmente fora de Pyongyang.

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