Bobby Yip/Reuters
Bobby Yip/Reuters

Pyongyang prepara festa e desafia EUA

Washington considera lançamento de satélite, previsto para os próximos dias, pretexto para teste de míssil e ameaça interceptá-lo

CLÁUDIA TREVISAN , ENVIADA ESPECIAL / PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h03

A Coreia do Norte comemorará daqui a uma semana o centenário de nascimento de seu fundador, Kim Il-sung, em uma celebração que reunirá a exibição de poderio militar e de coesão ideológica, além do lançamento de um satélite que poderá colocar o país em rota de colisão com seus vizinhos e com os americanos.

Apesar da pressão internacional, Pyongyang manteve os planos do que diz ser o desenvolvimento pacífico de seu programa espacial. Japão, Coreia do Sul e EUA afirmam que o satélite é um pretexto para a realização de um teste com um míssil de longo alcance, que seria usado para colocação do artefato em órbita.

Os três países ameaçam derrubar o foguete, o que o governo norte-coreano interpretará como uma declaração de guerra, segundo o jornal oficial Rodong Sinmun. "Interceptar o satélite para propósitos pacíficos é um ato de guerra que está destinado a provocar catástrofes tremendas", afirmou a publicação.

O lançamento está previsto para ocorrer entre os dias 12 e 16, mas é provável que seja feito no domingo que coincide com a data de aniversário de Kim Il-sung, quando ocorrerão os maiores festejos desde a fundação do país, em 1948. Venerado como pai do povo norte-coreano, Kim Il-sung é objeto do mais intenso culto à personalidade existente no mundo e sua imagem está em todos os lugares - dos broches pregados às roupas dos norte-coreanos aos pôsteres pendurados nas paredes de suas casas.

"Kim Il-sung é tudo para eles", diz Brian Reynolds Myers, professor da Universidade Dongseo, na Coreia do Sul, e especialista em literatura e sociedade norte-coreanas. Segundo ele, o fundador do país é a fonte de legitimidade de seus sucessores e do regime, caracterizado pela combinação de stalinismo e monarquia.

O centenário de seu nascimento é uma data para a qual o regime de Pyongyang se prepara há anos, com a intenção de mostrar ao exterior a imagem de um país "forte e próspero". Com um Exército de 1,1 milhão de pessoas - o quarto do mundo - e a posse de armas nucleares, a Coreia do Norte sem dúvida avançou na construção de sua força, ainda que tenha registrado poucas conquistas no terreno da prosperidade.

A celebração do centenário inclui a conclusão de obras que têm o objetivo de alterar esse cenário, mesmos que de maneira incipiente. A mais importante delas é a hidrelétrica de Huichon, inaugurada quinta-feira. Com capacidade de 300 mil quilowatts, é a maior usina do país e deverá amenizar a crônica falta de energia que restringe o crescimento econômico e castiga a população de 25 milhões de pessoas. A escassez de eletricidade é visível em fotos noturnas de satélites, nas quais a Coreia do Norte aparece como uma mancha negra, com exceção de um ponto iluminado, Pyongyang, em contraste com as luzes que ocupam a maior parte da imagem da Coreia do Sul.

Os eventos desta semana também terão a função de fortalecer o poder de Kim Jong-un, que, com menos de 30 anos, assumiu o comando do país. Na quarta-feira, o Partido dos Trabalhadores da Coreia faz uma conferência que deverá elevá-lo ao cargo de secretário-geral da legenda, o que automaticamente o transforma em chefe da comissão militar da organização.

A lógica dinástica do regime estava clara em um dos slogans exibidos no site do jornal oficial: "Vamos exaltar a dignidade do grande país de Kim Il-sung, do país do general Kim Jong-il, seguindo a liderança do camarada Kim Jong-un".

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