Pyongyang quer acabar com 'estado de guerra'

Após acordo nuclear de quarta-feira, Coreia do Norte tenta fazer EUA assinarem tratado de paz formalmente encerrando conflito dos anos 50

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h02

O acordo fechado anteontem entre EUA e Coreia do Norte é só o começo de uma longa negociação. No centro das conversas estará uma das principais demandas de Pyongyang para abandonar seu arsenal atômico: a assinatura de um acordo de paz que coloque um fim oficial à Guerra da Coreia (1950-1953) e normalize a relação com Washington - algo difícil de ser entregue por Barack Obama em ano eleitoral.

"O sucesso das negociações vai depender fundamentalmente da atitude dos EUA e de quão seriamente eles tratarem as demandas norte-coreanas", opinou Paik Hak-soon, diretor do Centro de Estudos da Coreia do Norte do Instituto Sejong e um dos mais respeitados especialistas no assunto na Coreia do Sul.

Depois de quase três anos de paralisia nas negociações, a Coreia do Norte anunciou anteontem a suspensão de seu programa de enriquecimento de urânio e de testes de armas nucleares, além de concordar com a entrada no país de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Em troca, os EUA doarão 240 mil toneladas de alimentos ao empobrecido país.

Jin Canrong, vice-diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade do Povo da China, afirmou que o pacto tem "fragilidades", mas poderá garantir estabilidade na região neste ano, o que é crucial não apenas para o futuro político de Obama, mas também para a China.

O PC chinês iniciará no segundo semestre o processo de sucessão de geração de líderes, que ocorre a cada dez anos, e Pequim não gostaria de enfrentar surpresas como uma crise detonada por um novo teste nuclear norte-coreano. "O acordo poderá evitar problemas neste ano", ressaltou Jin, que faz parte do establishment de pensadores da política externa chinesa.

No entanto, ele observou que o pacto pode ser revertido, caso a Coreia do Norte se convença de que os EUA não avançam de forma efetiva no diálogo em torno de suas demandas. "Eles querem a normalização de relações com os EUA e não creio que Washington esteja pronto para atender essa pretensão", afirmou.

O texto do acordo ressalta que Pyongyang cumprirá suas promessas desde que as conversações "prossigam de modo frutífero". Na opinião de Paik, isso significa avanços nas duas históricas demandas norte-coreanas: a assinatura do acordo de paz e o abandono da política anti-Pyongyang adotada pelos EUA. Em outras palavras, eles querem a garantia de que não serão invadidos nem serão alvo de tentativas de mudança de seu regime.

Segundo Paik, a Coreia do Norte também vê a normalização de suas relações com os Estados Unidos como uma maneira de reduzir sua dependência em relação à China.

As limitações do anúncio também foram ressaltadas por Cai Jian, do Centro de Estudos da Coreia do Norte da Universidade Fudan, de Xangai. "O pacto vai reduzir tensões, mas é o ponto de partida. Nós temos de esperar e ver se haverá progressos adicionais", disse, lembrando que a Coreia do Norte voltou a desenvolver seu programa nuclear depois de suspensões temporárias no passado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.