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Quais as causas do conflito entre Armênia e Azerbaijão?

Antes da final da Liga da Europa, questão voltou a ganhar espaço após jogador armênio Henrikh Mkhitaryan decidir não participar de disputa por questões geopolíticas envolvendo seu país e o que recebe a partida do torneio europeu

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2019 | 10h09

Nesta quarta-feira, 29, acontece a final da Liga Europa entre Chelsea e Arsenal. No entanto, o local da disputa pode ser um problema para os Gunners. É que uma de suas apostas, o jogador Henrikh Mkhitaryan, não deve entrar em campo devido à um conflito geopolítico de Nagorno-Karabakh, que acontece há anos entre seu país natal, a Armênia, e o Azerbaijão, cuja capital, Baku, sediará o jogo da final.

Perfil

A república de Nagorno-Karabakh está localizada em uma região montanhosa no Sul do Cáucaso, território que faz parte da Europa Ocidental e está localizado entre o Mar Negro e o Mar Cáspio. Ela é povoada, em sua maioria, por cristãos armênios separatistas e atualmente está sob o controle da Armênia. Desde 1991, os armênios e os azeris do Azerbaijão, estão em conflito pelo território.

Como tudo começou?

Historicamente, a região sempre foi marcada por uma intensa competição entre os cristãos armênios e os azeris muçulmanos xiitas, que costumavam povoar em conjunto a região. Os sinais de um confronto mais violento começaram a surgir no século 19, quando a área foi anexada ao Império Russo e, consequentemente, à União Soviética.

No entanto, quando o controle soviético começou a dispersar na década de 80, surgiram as primeiras faíscas entre Armênia e Azerbaijão e a situação ficou mais intensa e violenta. Isso porque, nesse mesmo período, o Parlamento da região votou para se juntar à Armênia em razão da identificação étnico religiosa desses grupos. 

A atitude deflagrou uma série de confrontos que mataram mais de 30 mil pessoas. Estima-se que durante o combate mais de um milhão de pessoas de ambas as nações tiveram que deixar suas casas. Nesse processo, os separatistas armênios conquistaram o controle da região e também dos territórios azeris que ficavam no entorno de Karabakh - formando um enclave que facilitou a ligação entre a região e a Armênia. 

Em 1991, com a queda da União Soviética, a região declarou independência - que não foi reconhecida por ninguém. Porém, os separatistas passaram a contar com a Armênia como principal fonte financeira e militar. 

Quando se deu a trégua?

Em 1994, a Rússia ajudou a negociar um cessar-fogo na região. No acordo firmado entre ambas partes, foi decidido que o enclave composto por Nagorno-Karabakh e pelas demais regiões azeris ao entorno, ficariam sob o controle da Armênia.

Com o tempo, esse acordo levou a um impasse - de um lado, os azeris queriam de volta as terras consideradas legítimas, e que agora pertenciam ao enclave. Do outro, não havia nenhuma disposição dos armênios em devolvê-las. Mas apesar do clima de incerteza - e das habituais trocas de tiro -, a relação entre os países se manteve estável na região, com os presidentes se encontrando ocasionalmente para reforçar a mensagem de paz. 

A situação voltou a ficar tensa em abril de 2016, quando as tropas de ambas as regiões e os separatistas de Nagorno-Karabakh travaram um intenso ataque. Segundo o Azerbaijão, 12 soldados foram mortos e um helicóptero foi derrubado. Já para a Armênia e os separatistas, foram os azeris que iniciaram os ataques com tanques, artilharia pesada e helicópteros. Esse confronto encerrou oficialmente o cessar-fogo de mais de 20 anos.

Atualmente, há um esforço entre as nações para manter o confronto sob controle. Coliderados por Rússia, França e Estados Unidos, o Grupo de Minsk, comitê pertencente à Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), tem trabalhado em uma solução definitiva que termine com o confronto.

Quais as forças envolvidas no confronto?

Aliados à Armênia estão Rússia e Irã - países com um histórico de bom relacionamento com a região. Os iranianos têm forte relação com a comunidade armênia de Teerã, enquanto que os russos sempre se consideraram protetores dos armênios devido ao tempo que eles passaram ligados aos soviéticos. 

Já com o Azerbaijão estão Israel e Turquia. Nesse cenário, é interessante ressaltar que existe uma profunda parceria entre os azeris e os israelenses, que pode ser apontada como uma das mais fortes do mundo islâmico, principalmente no que tange a compra de armas e treinamento militar. Além do mais, em caso de guerra contra o Irã, o Azerbaijão seria geograficamente estratégico para Israel.

Os Estados Unidos adotaram a neutralidade nesse confronto, mas é notável que os americanos possuem uma ligação maior com o Azerbaijão do que com a Armênia.

O que a região pode oferecer?

A região do mar Cáspio, onde está situada Nagorno-Karabakh, é naturalmente rica em petróleo. Porém, esse recurso pode ser exportado apenas por duas rotas: pelo noroeste da Rússia ou pelo sudoeste do Cáucaso, sendo que cortando essa última região - e também passando ao lado do enclave - estão os dois oleodutos que transportam petróleo e gás do Azerbaijão para o leste europeu e que são controlados pelos azeris.

E isso desperta um grande interesse na Europa, que quer se libertar da dependência energética de Moscou. No entanto, os europeus sabem que um conflito na região pode ameaçar seus planos, já que como são os azeris que controlam os oleodutos, estes poderiam ser fechados durante uma possível guerra com a Armênia - o que deixaria o continente ainda mais ligado à Rússia e minaria os planos dos europeus de construir novos oleodutos pelo mar Cáspio.

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