Quais são as lições da guerra?

A experiência iraquiana influencia importantes decisões do governo Obama, principalmente sobre a Síria e o programa nuclear do Irã

DAVID E., SANGER, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, DAVID E., SANGER, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h05

Análise

Stephen J. Hadley, que há uma década teve um papel primordial na decisão do governo americano de iniciar uma guerra contra o Iraque, referiu-se aos inúmeras equívocos e hipóteses inexatas da Casa Branca durante o governo George W. Bush que conduziram à guerra, como "falta de imaginação". Suas explicações sobre o que deu errado contêm muitas lições para o caso de duas crises: da Síria e do Irã, com as quais o presidente Barack Obama se defronta.

Hadley disse a um pequeno grupo reunido em Washington na tentativa de extrair as lições a longo prazo da guerra no Iraque, que jamais ocorreu a ele ou seu chefe, o presidente Bush, perguntar: "e se Saddam Hussein estiver usando todos esses subterfúgios porque, na verdade, ele se desfez das armas de destruição em massa e não quer que os iranianos saibam?" A Casa Branca e as agências de inteligência precipitaram-se para a conclusão de que o líder iraquiano, que havia tentado no passado dotar-se de armas de destruição em massa, devia ainda estar na mesma busca. "Ocorre que essa era a pergunta mais importante em termos do fracasso da inteligência que nunca foi feita", disse Hadley.

A experiência do Iraque paira sobre todas as decisões importantes que a equipe de política externa de Obama precisa tomar diariamente. E sobre todos os debates cotidianos quanto a intervir - com armas pesadas ou uma ação secreta mais efetiva - na Síria. E permeia a discussão sobre o progresso nuclear do Irã. "Pensamos nas analogias com o Iraque o tempo todo", afirmou um funcionário do alto escalão do governo. "Mas estaria mentindo se dissesse que há um consenso claro - mesmo dentro do governo - quanto ao que essas lições nos informam."

É o caso da Síria - o atual e mais urgente tema de debate do governo, no que diz respeito a uma intervenção. Ninguém fala em enviar tropas americanas: há dois anos, durante a intervenção americana e da Otan na Líbia, Obama deixou claro que o envio de soldados e a ocupação que se seguiria estavam fora de questão.

É provável que algumas hipóteses erradas que Hadley hoje admite contribuíram para a invasão e ocupação americana do Iraque - que os partidários de Saddam Hussein deviam ser eliminados do topo das instituições de governo e o país continuaria funcionando, ou as desastrosas consequências do desmantelamento do Exército iraquiano - dominavam as ideias de Obama na época.

Alguns dos atuais assessores de Obama, e muitos militares de alta patente, afirmam que a real lição oferecida pelo Iraque é jamais se envolver na reconstrução de uma sociedade que os EUA não compreendem e também não podem controlar.

Tanto a ex-secretária de Estado Hillary Clinton quanto o antigo diretor da CIA, David Petraeus, eram a favor de os EUA armarem os rebeldes e, nas entrelinhas, afirmavam que a experiência do Iraque não deveria impedir os EUA de usarem seu poder para alterar o equilíbrio de forças, especialmente quando o que se desejava era acabar com o banho de sangue. Outra pessoa que compartilha da mesma opinião é Anne-Marie Slaughter, diretora de planejamento político do Departamento de Estado na época de Hillary. Ela afirmou recentemente que Obama "tem de encontrar o meio termo entre nos comprometermos com uma guerra que pode durar uma década ou não fazermos nada".

Até agora, pelo menos, a cautela manifestada pelo presidente - com base não só na experiência do Iraque, mas também do Afeganistão - tem prevalecido. Ele se dispôs a intervir na Líbia, pois viu uma maneira de os EUA influenciarem de maneira rápida e decisiva no desfecho do conflito com pouco risco de vítimas. "Ele não acha que isso é possível na Síria", afirmou um dos seus assessores militares. "Obama considera o conflito similar ao do Iraque, onde nossas esperanças de fazer algo positivo poderão ser arrebatadas pela realidade de nos vermos enredados nas suas sequelas."

Para alguns veteranos do governo Bush - muitos ainda insistindo que o ímpeto no sentido da guerra no Iraque era justificado, mesmo que a decisão tenha sido mal executada -, a hesitação de Obama sugere que ele aprendeu as lições erradas da guerra do Iraque.

"O presidente Obama parece estar experimentando a ideia de que, não intervindo na Síria, poderemos evitar a responsabilidade pelo caos muito previsível que se aproxima", disse Peter Feaver, professor da Duke University que trabalhou com Bush e Hadley.

"Então, quando e se Bashar Assad cair e o caos previsto por todos ocorrer de fato, todos diremos, 'nós dissemos...'. E aparentemente a posição do governo é, 'mas não somos responsáveis por isso e, portanto, não é nosso problema'". A este argumento, um funcionário do governo respondeu: "É nosso problema, mas é diferente de dizer que precisamos reconstruir a Síria. Esta é a distinção que Bush não fez".

O Irã também fornece outro conjunto de lições sobre a experiência iraquiana. "O problema era que, no caso das armas de destruição em massa iraquianas, os políticos queriam más notícias", afirmou James Dobbins, da RAND Corporation. A equipe de Obama, embora aparentemente convencida de que o Irã almeja fabricar armas nucleares, não chegou a dizer que os iranianos já decidiram entrar nos estágios finais para fabricar uma bomba. E a CIA e outras agências de inteligência, não querendo repetir seus muitos erros recentes, também vêm agindo com mais cautela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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