Qual a motivação das 'viúvas-negras' do Cáucaso?

Não sabemos muito sobre as razões das mulheres responsáveis pelos atentados na Rússia, mas é claro que há fatores por trás do terrorismo que impera na região que não serão eliminados por meio da repressão em nome dos Jogos Olímpicos

Joshua Keating*, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2014 | 02h02

A série de atentados a bomba que chocou a Rússia nos últimos dias compreensivelmente desencadeou muito temor quanto à segurança durante a próxima Olimpíada de Inverno, em Sochi, mas é caso também de se perguntar qual a razão pela qual tantas mulheres cometem os piores atos de terrorismo.

As mulheres-bomba não são um fenômeno desconhecido em conflitos, seja entre israelenses e palestinos ou no Sri Lanka, mas o papel das "viúvas-negras" como elas vêm sendo apelidadas pela imprensa, parece particularmente importante e notório na insurgência que predomina há muito tempo no norte do Cáucaso.

Uma mulher-bomba foi a responsável pelo atentado de domingo na estação de trem de Volgogrado e também pela explosão de uma bomba em um ônibus que matou cinco pessoas na mesma cidade, em outubro. Mulheres-bomba também teriam realizado o ataque ao metrô de Moscou, que deixou 38 mortos, em 2010, e tomaram parte em dois dos piores ataques terroristas da era moderna: a tomada do teatro Nord-Ost, em 2001, e o atentado contra uma escola de Beslan, em 2004.

O primeiro atentado que teve como responsável uma viúva-negra foi em 2000, quando Khava Baraeva "dirigiu um caminhão repleto de explosivos e o arremessou contra um prédio que abrigava forças especiais russas na Chechênia. Em agosto, a jornalista Anna Nemtsova escreveu no site Daily Beast que "nos últimos 12 anos, 46 mulheres-bomba cometeram 26 ataques terroristas na Rússia (alguns atentatos envolveram várias mulheres)".

Muitas delas eram da Chechênia e do Daguestão. Muitos estudos sobre as mulheres-bomba chechenas concluíram que, no geral, são mulheres que sofreram traumas pessoais graves e foram recrutadas por grupos jihadistas. Como o termo "viúva-negra" sugere, muitas perderam membros da família nas últimas duas décadas de violência desde que irrompeu a guerra na Chechênia.

Segundo um estudo realizado em 2006 pelas psicólogas Anne Speckhard e Khapta Akhmedova, publicado pelo Jaffee Center for Strategic Studies, da Universidade de Tel-Aviv, "todos os indivíduos dentro da mostra sofreram graves traumas pessoais e evidenciaram sintomas de estresse pós-traumático e fenômenos dissociativos".

"O caminho para o terrorismo quase sempre começa com pessoas que, em razão de seu estado psicológico, veem-se atraídas por grupos radicais e adotam a ideologia jihadista à medida que enfrentam perdas extremas e violentas", afirma o estudo. Segundo as autoras, nenhuma das mulheres "parece ter sido forçada, drogada ou de alguma maneira persuadida a cometer tais atos".

A jornalista Anna Nemtsova amplia alguns dos fatores que podem levar essas mulheres ao terrorismo. No Cáucaso, temas como amor e frustração sexual são tabus, assuntos vergonhosos para discutir até mesmo com amigas íntimas. As mulheres devem reprimir seus desejos e manter suas frustrações em segredo.

A ativista de direitos humanos Kheda Saratova entrevistou algumas mulheres tentando explorar os traumas íntimos que podem levar uma muçulmana a se juntar a movimentos radicais. "Elas falam apenas de problemas rotineiros em casa, mas jamais sobre questões envolvendo suas relações ou sua vida sexual. Elas temem a humilhação pública", diz Saratova.

Para as mulheres cujos maridos estão na prisão, desaparecidos ou mortos e são condenadas ao ostracismo pela sua sociedade, não existe nenhuma saída para expressar sua dor. "Infelizmente, a grande cobertura dada às viúvas-negras só aumenta o ostracismo e até mesmo o abuso oficial das viúvas de militantes mortos, contribuindo ainda mais para esses fatores", disse Nemtsova.

No entanto, como observou Yulia Yuzik, na Foreign Policy, Naida Asiyalova, a mulher que realizou o atentado a bomba em outubro, não parecia se enquadrar no padrão normal. "Ela havia vivido e estudado durante anos em Moscou, teve bons empregos e sobreviveu na capital russa."

Parece que ela cometeu o atentado menos por vingança em razão de um trauma que sofreu e mais porque seria a maneira mais eficaz de realizar um ataque terrorista. Seu marido, Dmitri Sokolov, foi morto em um tiroteio com a polícia no Daguestão, em novembro.

Não sabemos muito sobre as motivações das mulheres responsáveis pelos atentados desta semana, mas é claro que existem fatores por trás do terrorismo brutal que impera nessa região que não serão eliminados por meio de uma forte repressão em nome da segurança dos Jogos Olímpicos.

*Joshua Keating é jornalista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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