Qual a verdadeira causa da morte de Lenin?

Há 18 anos, especialistas se reúnem nos EUA para especular sobre os cadáveres mais conhecidos da história e elaborar as teorias mais fantásticas

É JORNALISTA, MANUEL , ROIG-FRANZIA, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, MANUEL , ROIG-FRANZIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2012 | 03h10

A morte nunca morre por aqui. Em vez disso, ela se torna cada vez mais interessante. Ela se torna viva em cada detalhe chocante, em cada pista envolvendo suas causas, em cada fragmento de prova que espera para ser somado a outro fragmento, e outro e outro, até que uma imagem comece a se formar a partir de migalhas de informação reunidas décadas ou séculos atrás.

A morte, ao menos para os médicos e amantes da história que se reúnem todos os anos na Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, é o mais divertido dos enigmas, que os leva às teorias mais fantásticas. Será que era possível salvar Abraham Lincoln? Sim. Será que George Custer era vítima tanto dos índios contra quem combatia quanto de um distúrbio de personalidade? Pode apostar que sim. O que levou Florence Nightingale a se tornar uma reclusa? Ela pode ter sido bipolar.

Eles fazem isso há 18 anos, analisando registros de autópsias, consultando textos históricos e fazendo perguntas a especialistas de renome nacional que viajam à cidade para participar de uma conferência anual promovida pela Associação de Ex-Alunos de Medicina, que se converteu numa mistura de sanguinolência antiga, tripas velhas e glória do passado.

Investigação. A morte pode parecer assustadora, mas, para Philip Mackowiak, professor que teve a ideia da conferência, a investigação do fim do ser humano pode ser "muito divertida". Esses sujeitos eram como House muito antes de House ser House, mas, diferentemente do médico que soluciona charadas na TV, a preocupação deles é com os mortos, e não com os vivos.

Mackowiak preside esse universo de intriga médica num grande e antigo anfiteatro semicircular onde o ar é mofado, como se tivéssemos entrado numa antiga adega ou numa cripta. A luz chega ao Davidge Hall por meio das janelas distribuídas no formato de uma teia de aranha.

Robustas fornalhas de metal ficam incrustadas na parede de trás do anfiteatro, construído há mais de 200 anos. Eram utilizadas em experimentos químicos, diz-me um dos organizadores da conferência, e não para os cadáveres que um dia foram examinados no "salão de anatomia" do andar superior.

Mackowiak tem uma extensa lista de personalidades históricas cuja morte lhe interessa. Ele adoraria investigar o histórico médico do pintor espanhol Francisco de Goya. "De acordo com a biografia dele, o homem era completamente surdo", diz Mackowiak. Ou quem sabe Buda ou o general sulista Stonewall Jackson.

Revolucionário. No entanto, o cadáver que protagonizou a conferência atual parece ter gostado de bater a cabeça. O metal pesado pode ter desempenhado um papel na sua morte. Partes do seu cérebro tinham a textura de uma rocha.

Infelizmente, o morto não pôde participar da investigação. Ele é mantido sob uma redoma de vidro na Praça Vermelha, em Moscou. No entanto, os dados a respeito de sua vitalidade crescente e então minguante estavam expostos no anfiteatro para que todos pudessem ver.

Vladimir Lenin, antigo revolucionário bolchevique e líder soviético, nasceu com pernas curtas e fracas e uma cabeça desproporcionalmente grande, descobriram os médicos e investigadores. Quando era criança, ele tinha o hábito de bater com a cabeça no chão sempre que ficava frustrado, o que fazia sua mãe pensar que ele tivesse algum tipo de deficiência no desenvolvimento, de acordo com os dados históricos.

A solitária bala de chumbo disparada por uma assassina estava alojada perto de sua clavícula direita, introduzindo no corpo dele um metal pesado. No entanto, era no cérebro dele que estavam as anomalias. Os glóbulos sanguíneos dele "eram duros como pedra", disse Harry Vinters, respeitado professor de patologia e medicina laboratorial da UCLA.

Causa da morte. Mas qual seria o real motivo por trás disso? Por que um homem que morreu em 1924, a apenas três meses de completar 54 anos, teria glóbulos sanguíneos tão incomumente duros em seu cérebro? Durante sua apresentação e, posteriormente, nos pequenos grupos de frequentadores, Vinters enumerou uma lista de fatores de risco que poderiam resultar em glóbulos sanguíneos cerebrais duros como pedra.

Diabetes? "Não." Fumante? "Não". Além de não fumar, Lenin parecia se queixar muito quando outros tentavam fumar perto dele. Estresse? Quase. De acordo com a teoria de Vinters, o estresse pode ter desempenhado um papel. Histórico familiar? Parece que estamos chegando a algum lugar. O pai de Lenin morreu aos 54 anos depois de sofrer uma série de derrames.

Lenin também teve derrames. Na plateia formada por aproximadamente 200 espectadores, canetas anotavam furiosamente nos cadernos e no verso do material da conferência. As engrenagens estavam se movimentando. Teorias estavam se formando.

Alguns levantaram a hipótese de Lenin ter sido uma vítima da sífilis. Vinters não acredita nisso. Não há provas, disse o professor depois de sua palestra, enquanto os frequentadores apresentavam seus melhores palpites. Talvez os médicos dele tenham pensado que Lenin tinha sífilis, doença que costumava ser tratada com arsênico naquela época.

O roqueiro. O que levou todos os presentes a uma teoria que nada tem a ver com evidências médicas e tudo a ver com o bom e velho exercício histórico de ligar os pontos.

Os participantes receberam a ajuda de um escritor russo, Lev Lurie, que especulou dizendo que Lenin poderia ter sido exterminado por um envenenamento ordenado pelo rival Stalin, por mais que já estivesse muito debilitado em razão dos derrames.

Depois das palestras da conferência, durante o momento do dia dedicado ao lanche e à troca de teorias, Dahlia Hirsch, cirurgiã aposentada, reuniu todas as evidências numa heroica conclusão. Foi o histórico familiar, o estresse, a bala de chumbo e o arsênico. Isto fazia todo o sentido do ponto de vista da medicina, mas Doris Cowl, professora de matemática da Universidade Towson, defendeu uma resposta que mais parecia ser um desejo histórico. "O envenenamento é mais interessante", opinou.

No estacionamento, do lado de fora da conferência, os manobristas se perguntavam a respeito do tema do encontro. Um dos participantes contou a eles quem era o objeto dos estudos, mas eles só conseguiram pensar em um quase homônimo: Lennon, o roqueiro britânico, e não em Lenin, que tinha glóbulos sanguíneos duros como pedra. Depois de esclarecida a confusão, um dos manobristas exclamou: "Ah, aquele sujeito russo!" / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Mais conteúdo sobre:
Visão Global

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.