REUTERS/Peter Nicholls
REUTERS/Peter Nicholls

Qual Corbyn está à porta de Downing Street?

Os trabalhistas provavelmente governarão o Reino Unido em breve. Mas quem governa os trabalhistas?

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2017 | 05h00

Em 2015, ao lançar sua candidatura, nem Jeremy Corbyn acreditava que seria líder do Partido Trabalhista. Quando isso ocorreu, poucos acreditavam que ele sobreviveria a uma eleição parlamentar.

Agora que a maioria conservadora no Parlamento evaporou e a primeira-ministra Theresa May enfrenta dificuldades para forjar um consenso entre seus correligionários sobre os termos em que o Reino Unido deixará a União Europeia (UE), a possibilidade, antes inconcebível, de que um esquerdista radical venha a se instalar no número 10 de Downing Street, parece cada vez mais plausível.

Nas casas de apostas, Corbyn é considerado o favorito para tomar o lugar de May. Os trabalhistas precisam se apoderar de apenas sete cadeiras do Partido Conservador para dar a seu líder a oportunidade de formar uma coalizão e assumir o governo.

São duas as visões que podem embalar um futuro governo Corbyn. Uma delas, esboçada no manifesto que os trabalhistas apresentaram pouco antes da eleição de junho, tem um programa que, para os padrões da política britânica recente, parece antiquado e excessivamente de esquerda, mas não chegaria a provocar espanto em boa parte da Europa Ocidental. Tampouco causaria ao país danos catastróficos.

A outra, cujos contornos podem ser traçados a partir de declarações recentes e pontos de vista arraigados de Corbyn e daqueles que lhe são mais próximos, adota uma agenda radical, capaz de provocar prejuízos graves e duradouros para a prosperidade e a segurança do Reino Unido. O futuro do Partido Trabalhista – e, muito provavelmente, do país – depende de qual dessas visões se tornará realidade.

O manifesto trabalhista divulgado em junho se caracteriza pelo tom insosso e retrógrado, resgatando ideias já experimentadas e deixadas de lado. Mas suas propostas fariam o Reino Unido regredir apenas alguns anos, e não décadas inteiras. A intenção de aumentar os impostos das pessoas jurídicas – especialmente nociva num momento em que, com o Brexit, o país precisa reter o maior número possível de empresas – elevaria a carga tributária, fazendo-a recuar aos níveis de 2011.

O valor proposto para o piso salarial nacional, de £ 10 (R$ 42,30) por hora trabalhada, deixaria o país com um dos salários mínimos mais altos da Europa, mas não drasticamente acima do pretendido pelos conservadores. A ideia de tornar o ensino superior gratuito prejudicaria as universidades e beneficiaria sobretudo as famílias mais abastadas, ao passo que a estatização das ferrovias e de algumas empresas de utilidade pública as deixaria menos eficientes e sem recursos para investir.

São medidas ruins, mas não o suficiente para reduzir o país a escombros. Se os trabalhistas conseguirem combiná-las com a busca de um Brexit menos radical do que o desejado por May e seus correligionários – alguns dos quais continuam achando ser uma boa ideia deixar o bloco europeu sem firmar nenhum tipo de acordo com a UE –, é possível até que os britânicos tenham um destino melhor do que se continuassem sendo governados pelos conservadores.

Mas o fato é que um outro plano de governo pode ser pinçado das declarações de Corbyn, com consequências bem mais nefastas. Desde que ascendeu à liderança do Partido Trabalhista, Corbyn defende que, além do salário mínimo, o país adote também um valor máximo de remuneração para todas as pessoas. Também propõe que o governo obrigue o Banco da Inglaterra, que desde 1998 conduz sua política monetária com independência, a emitir dinheiro para financiar investimentos públicos.

Embora os trabalhistas já tenham se comprometido publicamente com a manutenção da capacidade nuclear do Reino Unido, Corbyn não faz segredo de seu desejo de se livrar das ogivas do país. Da mesma forma, ainda que a permanência na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) esteja entre as bandeiras do partido, Corbyn defendeu por várias décadas o fim da aliança atlântica. No ano passado, rejeitou até mesmo dizer se, como primeiro-ministro, estaria disposto a defender países integrantes da Otan que fossem atacados pela Rússia.

O manifesto do Partido Trabalhista afirma que a realização de um novo plebiscito sobre a independência da Escócia é “indesejável e desnecessária”. Corbyn não vê problema num novo pleito – e a questão é importante, pois o caminho que mais provavelmente o levará a Downing Street passa por uma aliança com o Partido Nacional Escocês.

Com relação ao Brexit, os trabalhistas são tão confusos quanto os conservadores. Mas a preservação do acesso ao mercado único, que é, em tese, a prioridade do partido, não combina com o ceticismo há muito manifestado por Corbyn em relação à globalização em geral e à UE em particular.

Todo líder acaba abrindo mão de parte de suas posições pessoais em favor do consenso predominante no partido. Mas é raro que o contraste seja tão flagrante como o que se nota entre os pontos de vista de Corbyn e os incluídos no manifesto trabalhista. Ainda mais incomuns são as pessoas em cuja companhia Corbyn circula.

Andrew Fisher, principal autor do manifesto de junho, defendeu a estatização de todos os bancos do país em livro publicado em 2014. Andrew Murray, que assessorou Corbyn durante a eleição, até 2016 pertencia ao Partido Comunista Britânico e já defendeu o regime da Coreia do Norte.

É de se imaginar que, cercado por esse tipo de pessoas, o instinto de Corbyn numa eventual emergência geopolítica deve ser o alinhamento contra os EUA. Da mesma forma, qualquer futura crise financeira tende a se apresentar, a seus olhos, como o primeiro ato do colapso do capitalismo.

Porta vermelha. Os freios a esse tipo de ponto de vista desarvorado começam a se afrouxar. Um deles está nas mãos dos representantes trabalhistas no Parlamento. No ano passado, 80% deles apoiaram uma moção de censura contra Corbyn. Mas a maioria queria descartá-lo principalmente porque temia pelo desempenho do partido na eleição. Agora que estão reeleitos e têm o poder à vista, não parecem se incomodar tanto assim com o radicalismo de seu líder.

No interior da burocracia partidária, as barreiras também estão ruindo. Os aliados de Corbyn já são praticamente maioria na Executiva Nacional, onde sua presença deve ser fortalecida se, como proposto, o número de sindicalistas aumentar. Os ativistas de esquerda, que nos anos 90 foram marginalizados por Tony Blair, estão em ascensão no partido.

Entre os cerca de meio milhão de filiados do Partido Trabalhista, a maioria é favorável a um programa mais radical. E o entusiasmo entre eles não poderia ser maior. Uma pequena complicação para Corbyn é que eles também são esmagadoramente favoráveis à UE.

Se estiver sendo sincero quando diz que o partido deveria ser governado por seus filiados, não por seus dirigentes, Corbyn talvez seja obrigado a abrir mão de suas convicções e concordar em defender que o Reino Unido continue sendo membro pleno do mercado único. Na prática, porém, parece que as posições dos filiados importam menos do que as dos ativistas mais engajados, que compartilham do euroceticismo de Corbyn.

O obstáculo ao radicalismo de Corbyn que mais rapidamente está se desfazendo é a oposição que o líder trabalhista enfrenta. A moderação do manifesto de junho tinha como pano de fundo sondagens eleitorais que previam uma derrota avassaladora do Partido Trabalhista.

Agora, Corbyn tem o poder à vista e enfrenta um governo conservador cabisbaixo. Sua margem de manobra aumenta a cada semana. O experimento de junho, com uma versão açucarada de Corbyn, foi um sucesso. A próxima dose não será tão doce. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

 

Mais conteúdo sobre:
Jeremy Corbyn Theresa May

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.