Qual dos dois milionários?

Se só 0,5% do operariado dos EUA tivesse qualidades para governar, seus integrantes poderiam preencher o Congresso e o Legislativo de cada Estado mais de 40 vezes

É PROFESSOR DE POLÍTICA PÚBLICA NA DUKE UNIVERSITY, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h06

Uma eleição supostamente nos oferece a possibilidade de escolher. Nós podemos confirmar o titular ou expulsar aquele que não cumpriu o que prometeu. Podemos escolher republicanos ou democratas. E escolher entre políticas conservadoras e progressistas.

Entretanto, na maioria das votações, não podemos opinar sobre um ponto muito importante: por acaso somos governados pelos ricos? Até o dia das eleições, em geral a escolha já foi feita. Você gostaria de ser representado por um advogado milionário ou por um empresário milionário? Mesmo na grande democracia americana, raramente há opção de pôr no cargo alguém que não pertence à elite.

Evidentemente, muitos candidatos de colarinho branco têm uma profunda preocupação pelos americanos que vivem do trabalho manual ou de um emprego no setor de serviços ou na indústria. Muitos são filhos ou netos de americanos que ganharam seu sustento nesses campos.

Mas por que é tão raro se apresentarem nas eleições representantes dessa classe à qual pertenceram, pelo menos durante um período da sua vida? A classe trabalhadora constitui a espinha dorsal da sociedade dos EUA, a maior parte da força de trabalho de 90 milhões de pessoas. Será possível que não haja um único ex-operário com as qualificações necessárias para ser presidente?

Estudo de que maneira a escassez nos cargos públicos de pessoas que outrora integraram a classe trabalhadora afeta a democracia dos EUA e as razões pelas quais são tão poucos os ex-operários que ocupam cargos no governo. Os dados que examinei sugerem que o problema não é a classe trabalhadora em si. É verdade que os trabalhadores em geral costumam apresentar uma avaliação mais baixa em matéria de conhecimentos políticos e envolvimento em causas cívicas. Mas há muito mais operários do que, por exemplo, advogados - e eles são tantos que, na realidade, há provavelmente mais operários americanos do que advogados com as qualidades que gostaríamos de encontrar no nosso candidato. Mesmo que pelo menos 0,5% do operariado tivesse as qualidades necessárias para governar, seus integrantes ainda poderiam preencher as cadeiras do Congresso e do Legislativo de cada Estado mais de 40 vezes - e sobraria um número suficiente para as Câmaras Municipais.

Se os milionários constituíssem um partido político, esse partido representaria aproximadamente 3% das famílias americanas, entretanto, teria uma super maioria no Senado, uma maioria na Câmara, uma maioria na Suprema Corte e um homem na Casa Branca.

Se os americanos da classe trabalhadora constituíssem um partido político, essa legenda representaria mais da metade do país desde o início do século 20. Entretanto, os legisladores desse partido (os que foram operários antes de ingressar na política) jamais teriam ocupado mais de 2% das cadeiras no Congresso.

E essas tendências não se limitam ao plano federal. Desde os anos 80, o número de legisladores estaduais cujas ocupações básicas são empregos na indústria ou no setor de serviços caiu de 5% para 3%. Nas Câmaras Municipais, menos de 10% dos membros são operários. Nos governos do país, em geral, praticamente ninguém com experiência profissional nesses setores tem um lugar à mesa.

E sua ausência tem consequências concretas. Parlamentares de classes diferentes costumam levar perspectivas diferentes para os cargos públicos. John Boehner gosta de afirmar que, intimamente, é um pequeno empresário. "Isso me deu uma perspectiva a respeito do nosso país que carrego comigo desde que ingressei no serviço público", diz. Ele está certo. Ex-empresários que hoje estão no governo costumam pensar como empresários, ex-advogados não deixam de pensar como advogados e (os poucos) operários costumam pensar como operários.

Edward Beard, um pintor de paredes de Providence, Rhode Island, que foi eleito para o Congresso em 1974, sempre carregou uma brocha com ele e pendurou uma na parede externa do seu gabinete em Washington. "O símbolo de quem eu sou e de onde venho, da classe operária."

Evidentemente, ex-pintores de parede são exceção no Congresso. E embora haja muitos parlamentares de colarinho branco cheios de boas intenções e tão poucos líderes com experiência em ocupações típicas da classe operária (de 1999 a 2008, o congressista médio havia passado 1,5% de sua vida adulta nesses empregos), a política econômica em geral costuma ter como meta resultados que favorecem os profissionais das outras classes em detrimento dos da classe trabalhadora. Os programas de seguridade social têm menos verbas, a regulamentação das empresas é mais duvidosa, a política fiscal é mais retrógrada e a proteção do trabalhador é mais fraca do que se os legisladores se originassem da mesma mescla de classes que compõem o povo que eles representam.

O fundamental é encontrar legisladores como Beard, americanos da classe trabalhadora que se dedicam à política. Ou pessoas como o deputado Stephen Lynch, que foi siderúrgico por quase 20 anos antes de estudar Direito e tornar-se assessor jurídico de operários - políticos que começaram como operários e ascenderam até se tornar membros da classe dos colarinhos brancos, mas ainda lembram como se usa uma brocha.

Minha experiência sugere que encontrá-los será fácil. Difícil será convencer gente de recursos a ajudá-los. Muitos dos chamados guardiães políticos ainda acreditam em mitos como o do "atraso do Kansas" ou que os operários são atrasados demais para saber o que é melhor para eles do ponto de vista político. Por outro lado, os que defendem a igualdade na política já estão muito ocupados com os grandes desafios: principalmente, a explosão do dinheiro e dos grupos de interesse em Washington e os grandes fossos sociais nas formas mais comuns de participação política, até mesmo no que diz respeito ao voto.

Mesmo que pudéssemos conter de algum modo a avalanche de dinheiro em Washington, mesmo que garantíssemos igual participação no dia das eleições, serão sempre os milionários que estabelecerão as alíquotas dos impostos dos milionários. Os profissionais do colarinho branco estabelecerão o salário mínimo para a classe trabalhadora. Pessoas que sempre tiveram um seguro de saúde ainda decidirão se ajudam ou não quem não tem nenhum. Se quisermos um governo para o povo, devemos começar a trabalhar para termos um governo pelo povo.

As eleições de 2012 oferecem uma escolha clara entre duas abordagens totalmente diferentes da política econômica. Mas, mesmo assim, se trata de uma escolha entre dois milionários que estudaram em Harvard. Até numa eleição que supostamente deverá determinar o futuro da nossa economia, não temos uma opção da classe trabalhadora na cabine de votação.

Está na hora de os cidadãos que se preocupam com a igualdade política começarem a investir nos candidatos da classe trabalhadora. Nós sabemos como fazer isso. Em 1945, a Câmara e o Senado tinham cada um 98 integrantes do sexo masculino. Nas décadas que se seguiram, os líderes dos partidos e os grupos de interesses decidiram recrutar muitas candidatas e hoje as mulheres constituem 17% do Congresso.

Se o clube dos ricos e influentes membros das elites não é invencível, o "Partido dos Milionários" provavelmente também não será. Mudanças como essas não são um bicho de sete cabeças. Só dão um pouco mais de trabalho. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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