The Washington Post by Andrew Quilty
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Qual o tamanho da ameaça que o EI representa no Afeganistão?

Na quinta-feira, 26, um duplo atentado suicida no aeroporto de Cabul matou ao menos 13 militares americanos e 60 civis afegãos; a filial afegã do Estado Islâmico, conhecida como Isis-K e rival do Taleban, reivindicou a autoria das explosões

David Fox e Qasim Nauman/AFP, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 09h00

O Taleban, que recuperou o poder no Afeganistão, é alvo do ódio permanente do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), que os EUA veem como uma ameaça a milhares de afegãos desesperados para fugir de Cabul.

O presidente dos EUA, Joe Biden, alertou nessa semana para o "risco agudo e crescente" de ataque no aeroporto de Cabul por parte da filial regional do EI, o grupo Estado Islâmico-Khorasan (ISIS-K).

Duas explosões mataram pelo menos 13 pessoas e feriram dezenas fora dos portões do aeroporto de Cabul na quinta-feira, disseram os taleban.

Mas, afinal, o que é o Estado Islâmico Khorasan? 

Meses após o EI ter declarado um califado no Iraque e na Síria em 2014, antigos taleban paquistaneses juraram fidelidade ao grupo e se juntaram a outros militantes no Afeganistão para formar um braço regional do EI.

A liderança central do EI reconheceu formalmente o grupo um ano após a sua instalação no nordeste do Afeganistão, nas províncias de Kunar, Nangarhar e Nuristan.

Também estabeleceu células noutras partes do Paquistão e Afeganistão, incluindo Cabul, de acordo com os monitores da ONU.

As últimas estimativas de sua força variam de 550 a  milhares de combatentes ativos, de acordo com um relatório do Conselho de Segurança da ONU divulgado em julho.

"Khorasan" é um nome histórico para a região que inclui partes do que é hoje o Paquistão, Irã, Afeganistão e a Ásia Central.

Que tipo de ataques realiza?

ISIS-K reivindicou alguns dos ataques mais letais dos últimos anos no Afeganistão e no Paquistão. Massacrou civis em ambos os países em mesquitas, santuários, praças e hospitais.

O grupo, um extremista sunita, tem visado sobretudo os muçulmanos que considera hereges, particularmente os xiitas.

Em agosto de 2019, o ISIS-K reivindicou a responsabilidade por um ataque a xiitas num casamento em Cabul que matou 91 pessoas.

Além disso, é suspeito de ter realizado um ataque em maio de 2020 em Cabul que chocou o mundo: pistoleiros abriram fogo numa maternidade num bairro de maioria xiita, matando 25 pessoas, incluindo 16 mães e recém-nascidos.

Nas províncias onde se estabeleceu, sua presença deixou cicatrizes profundas. Seus homens dispararam, decapitaram, torturaram e aterrorizaram os moradores e deixaram minas terrestres por todo o lado.

Qual é a relação da ISIS-K com o Taleban? 

Embora ambos os grupos sejam militantes islâmicos sunitas de linha dura, são também rivais e diferem nos pormenores de religião e estratégia, afirmando-se cada um deles como o verdadeiro porta-estandarte da jihad.

Em uma demonstração de sua inimizade, os comunicados do ISIS referem-se ao Talibã como apóstatas.

O ISIS-K enfrentou a repressão dos taleban contra seus dissidentes e não conseguiu expandir seu território, como logrou fazer no Iraque e na Síria.

Em 2019, o exército afegão, após operações conjuntas com os Estados Unidos, anunciou que o tinha derrotado o grupo na província de Nangarhar.

De acordo com avaliações dos EUA e da ONU, o ISIS-K tem desde então operado em grande parte por meio de células adormecidas nas cidades para levar a cabo ataques aos meios de comunicação social.

Como o EI recebeu a volta do Taleban? 

Nada bem. O Estado Islâmico foi altamente crítico ao acordo do ano passado entre Washington e os taleban, que levou a um pacto de retirada das tropas estrangeiras, acusando-os de abandonarem a causa jihadista.

Na sequência da rápida tomada do Afeganistão pelo Taleban, vários grupos jihadistas em todo o mundo felicitaram-nos, mas não o EI.

Um comentário publicado pelo grupo após a queda de Cabul acusou os taleban de trair os jihadistas ao fechar o acordo com Washington e prometeu continuar a sua luta, segundo o site Intelligence Group, que monitora as comunicações dos extremistas.

Mas o braço regional pode tirar vantagem da situação. "Mr. Q", um especialista ocidental que posta suas investigações no Twitter sob este pseudônimo, afirmou que o ISIS-K realizou 216 ataques entre 1º de janeiro e 11 de agosto, em comparação com 34 no mesmo período em 2020.

Qual foi a ameaça no aeroporto de Cabul? 

Os EUA e outros oficiais ocidentais alertaram que o aeroporto de Cabul, com milhares de tropas americanas cercadas por enormes multidões de afegãos desesperados, estava sob ameaça do ISIS-K.

Nos últimos dias, os aviões de transporte militar tinham deixado Cabul disparando chamarizes, incluindo os projetados para desviar mísseis. A área também é eventualmente exposta a ataques de morteiros e ataques suicidas, dizem os especialistas.

Vários analistas, incluindo o ExTrac, um grupo privado especializado em lidar com dados sobre grupos jihadistas, notam que o ISIS-K parou brutalmente sua atividade há 12 dias.

Os afiliados do EI, normalmente, desaparecem do mapa quando ativam o "modo de sobrevivência" ou preparam um grande ataque, disse o grupo no Twitter. 

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