Qual será o destino do Iêmen depois da queda do ''Chefão''?

As manifestações no Iêmen ganharam força após a queda de Hosni Mubarak no Egito. O que começou como uma pequena manifestação cresceu até se tornar um movimento de massas, unificando a oposição em torno da deposição do presidente Ali Abdullah Saleh. Membros das tribos se uniram a estudantes e secessionistas do sul se juntaram a rebeldes do norte. Até clãs que guerreiam entre si há anos deixaram de lado suas disputas em favor de uma frente comum.

Gregory Johnsen, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

O "Chefão", como Saleh é conhecido no país, sobreviveu por três décadas por saber jogar seus rivais uns contra os outros. Ele tentou fazer o mesmo agora: concessões políticas, dinheiro, carros novos para aliados e repressão contra manifestantes. Mas, na semana passada, passou dos limites. Na sexta feira, atiradores de elite abriram fogo contra uma multidão, matando 50 pessoas. O banho de sangue resultou numa onda de deserções de diplomatas e militares, entre eles o general Ali Mohsen al-Ahmar. A defecção do nome mais poderoso do Exército marcou o início de um novo estágio na revolução.

Os EUA e a Arábia Saudita estão pressionando por um acordo. Saleh e Ahmar se reuniram esta semana, mas o temor de uma transição violenta continua. Assim que o presidente cair, a euforia e a união dos dissidentes sumirão diante da perspectiva de reconstrução do país. O próximo governo terá de tomar decisões impopulares. As alianças atuais não sobreviverão.

Os EUA terão uma limitada janela de oportunidade e não podem mais ver o país apenas pelo prisma do terrorismo. Hoje, a ajuda americana no combate ao terror supera todas as outras formas de assistência. Washington precisa fazer mais pelo desenvolvimento do Iêmen e deve pensar nisso como um investimento estratégico para derrotar a geração atual de terroristas e evitar a formação de novos insurgentes.

Essa pode ser a última chance. Se Saleh cair e a comunidade internacional fracassar, a Al-Qaeda estará à espera e já mostrou suas intenções: seus ideólogos dizem que o Iêmen sofreu tanto sob a monarquia como sob a democracia. Agora, afirmam eles, é o momento de adotar a Lei Islâmica. Se o país não for resgatado, logo esses argumentos soarão muito mais convincentes do que hoje. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ESPECIALISTA EM IÊMEN DA UNIVERSIDADE

PRINCETON

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.