Mohammed Saber/EFE/EPA
Mohammed Saber/EFE/EPA

Qualquer que seja a decisão de Israel, a sombra do Estado único paira no horizonte

Sem sinal verde dos EUA, país adiou debate sobre anexação da Cisjordânia; Netanyahu está sob pressão de grupos de colonos e partidos políticos para estender soberania israelense

Ishaan Tharoor, The Washington Post

02 de julho de 2020 | 03h00

O primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu e seu novo governo de coalizão não tentaram a sorte nesta semana. A comunidade internacional contou os dias até 1º de julho, com medo de que Netanyahu seguisse suas promessas de anexar partes do território palestino com assentamentos judeus. Mas na quarta-feira, 1, o chefe da diplomacia israelense, Gabi Ashkenazi, afirmou que a confirmação da anexação naquele dia parecia "improvável", em entrevista à rádio do Exército.

O líder israelense está sob pressão de grupos de colonos e partidos políticos para estender a soberania israelense a mais de 30% da Cisjordânia o mais rápido possível, antes da possível saída do presidente Donald Trump do cargo. Nos últimos três anos, por meio de importantes concessões políticas a Israel– e também por meio de seu controverso esboço de plano de “paz” para o Oriente Médio, revelado em janeiro –, a Casa Branca mostrou sua disposição de ir além da tão esperada meta americana de uma “solução de dois Estados”, em favor de um novo status quo mais alinhado com os interesses da direita israelense.

“Aplicar a lei israelense em grande parte da Cisjordânia significaria o fim irreversível do projeto de Estado palestino, tornando Netanyahu o primeiro-ministro que não apenas enterrou a solução dos dois Estados, mas anexou os imóveis da Cisjordânia”, escreveu Aaron David Miller, ex-diplomata dos Estados Unidos e veterano das rodadas de negociação de paz entre Israel e Palestina.

O resto do mundo – incluindo muitos legisladores e especialistas em Washington – ainda se apega à visão de um Estado palestino viável e independente. Os planos de anexação de Netanyahu foram, é claro, rejeitados pela liderança palestina, que, em protesto, suspendeu a cooperação com a segurança e as agências civis de Israel. 

Mas também foram esmagadoramente criticados pela comunidade internacional: autoridades da União Europeia levantaram a possibilidade de sanções; os democratas de esquerda nos Estados Unidos agora querem suspender ou condicionar a ajuda militar a Israel com base em seu comportamento; uma série de Estados árabes envolvidos em uma aproximação tácita com Israel alertou que a anexação cortaria a nova amizade pela raiz.

A opinião consensual entre analistas da política israelense é que Netanyahu adotará uma abordagem menos agressiva, talvez começando por ampliar a soberania sobre apenas um pequeno punhado de assentamentos. Anunciar “alguma forma mais leve de anexação”, explicou meu colega Steve Hendrix, permitiria que Netanyahu “e o presidente Trump – que viram economias em ascensão entrarem em colapso – se concentrassem em outras frentes”.

Mas, para os palestinos, não há como seguir em frente. A Autoridade Palestina, entidade criada para ajudar a encaminhar a solução de dois Estados junto aos israelenses e à comunidade internacional, enfrenta uma crise profunda. 

Está em desacordo com o governo Netanyahu, que demonstra pouco interesse em atender até às demandas palestinas mais básicas; está entrando em falência; encontra-se atolada em um disfuncional impasse interno entre as principais facções e o grupo islâmico Hamas em Gaza; e vem se tornando cada vez mais impopular entre os palestinos comuns, a maioria dos quais “agora vê a AP como um passivo, não um ativo”, disse Ghaith al-Omari, ex-conselheiro do lado palestino em negociações de paz há duas décadas.

Proeminentes autoridades palestinas temem que, se Netanyahu avançar com a anexação, será o fim definitivo do já enfraquecido projeto de Estado palestino e haverá um cerceamento dos direitos iguais de cidadania, sob o qual suas vidas e movimentos estarão para sempre restritos pelos imperativos do Estado de segurança israelense. 

“Isso significa que eu, como palestino, não poderei fazer nada sem a permissão deles”, disse Saeb Erekat, secretário geral da Organização para a Libertação da Palestina, à minha colega Ruth Eglash. “Isso significa que eles controlarão meus movimentos, meu planejamento, minhas fronteiras e meu acesso a tudo (...). Eles estão tentando me sufocar, me enterrar, e acham que eu vou aceitar?”.

Outros afirmam que anos de ocupação, apropriação de terras e expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia e em torno de Jerusalém Oriental já haviam cimentado essa realidade. “Ao contrário da narrativa popular, a anexação não matará a solução de dois Estados – não dá para matar algo que já estava morto”, escreveu Yousef Munayyer, um estudioso americano palestino. “O que vemos é a anexação arrastando e exibindo o cadáver da solução de dois Estados diante do mundo”.

“Se você perguntar aos palestinos do Vale do Jordão como eles se sentem em relação à anexação, muitos dirão que pensavam que já tínhamos sido anexados há muito tempo”, escreveu Salem Barahmeh, diretor executivo do Instituto Palestino de Diplomacia Pública, com sede na cidade de Ramallah, Cisjordânia. “É por isso que só podem nos parecer ridículos os protestos crescentes, alarmistas e existenciais do mundo todo diante de 1º de julho”.

De fato, o alarme em Washington foi mais alto entre os defensores tradicionais de Israel. Eles argumentam contra a anexação em termos pragmáticos e políticos, reconhecendo que o atual status quo da mão de ferro israelense sobre o território palestino e da relativa quietude global sobre uma ocupação militar indefinida atende aos interesses israelenses e americanos – pelo menos mais do que um movimento unilateral que provocará a reação de palestinos e governos de outros países.

Mas a esquerda israelense critica essa postura, dizendo que a recusa à anexação deve se basear em motivos morais, não táticos. “Durante a era da escravidão nos Estados Unidos e do apartheid na África do Sul, havia quem lucrasse com a ordem social consagrada pela legislação da época”, escreveu Yehuda Shaul, um dos fundadores da Breaking the Silence [algo como “quebrando o silêncio”], organização de ex-soldados israelenses que se manifestam contra os abusos da ocupação.

“Uma pessoa justa não quer ter a sociedade onde vive repita esses erros”, acrescentou. “Qualquer pessoa que mora em um país que foi fundado graças a uma resolução da ONU, baseada no direito à autodeterminação, teria que a si mesma para negar esse mesmo direito às pessoas nativas que vivem ao nosso lado”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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