Quando a China dominar o mundo

Enquanto os americanos pressionam outros países a compartilhar seus valores, os chineses têm como trunfo a capacidade de se adaptar e aproveitar as regras existentes

O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h07

Pensar no futuro é algo preocupante para um europeu hoje. Os EUA estão militarmente sobrecarregados, politicamente polarizados e financeiramente endividados. A União Europeia parece encontrar-se à beira do colapso e muitos não europeus consideram o Velho Continente uma potência aposentada que ainda pode impressionar o mundo com suas boas maneiras, mas não com o seu vigor ou ambição.

As pesquisas de opinião realizadas nos últimos três anos no mundo inteiro indicam persistentemente que muitos começaram a virar as costas para o Ocidente e - com esperança, temor ou ambas as coisas - veem a China ocupando uma posição cada vez mais central no cenário mundial. Como diz uma velha piada, os otimistas estão aprendendo a falar chinês e os pessimistas, a usar uma Kalashnikov.

Embora um pequeno exército de especialistas ache que não devemos imaginar que a China esteja ascendendo ao poder, que suas bases econômicas, políticas e demográficas são frágeis, todos concordam com o crescente poder chinês.

Muitos se perguntam como seria a "pax sinica" global: Como se manifestaria a influência global da China? A hegemonia chinesa seria diferente da americana? Hoje, o debate sobre a China é dominado em geral por questões de ideologia, economia, história e poderio militar. Comparando o mundo americano atual a um possível mundo chinês de amanhã, o maior contraste está na percepção que americanos e chineses têm do mundo fora das respectivas fronteiras.

Os EUA são uma nação de imigrantes, mas também uma nação de pessoas que nunca emigram. Os americanos que vivem fora dos EUA não são chamados emigrantes, mas "expatriados". Os EUA criaram o conceito de cadinho de culturas - como o usado pelos alquimistas, no qual diversos grupos étnicos e religiosos se misturam voluntariamente, produzindo uma nova identidade americana.

Desde que os primeiros europeus se estabeleceram na América no século 17, gente do mundo todo foi atraída pelo sonho americano de um futuro melhor - e o atrativo dos EUA está em parte em sua capacidade de transformar outros cidadãos em americanos. Como disse um russo, hoje docente na Universidade de Oxford: "Você pode se tornar americano, mas nunca poderá se tornar inglês." Portanto, não surpreende que o objetivo global dos EUA seja a transformação. Eles exercem o papel de reguladores.

Os chineses não tentaram mudar o mundo, procuraram se adequar a ele. As relações da China com os outros países são canalizadas por sua diáspora, e eles veem o mundo por meio de sua experiência de emigrantes. O número de chineses que vivem fora da China é maior do que o de franceses que vivem na França. Esses chineses que se estabeleceram no exterior são os maiores investidores na China. Na realidade, há apenas 20 anos, os chineses no exterior produziam a mesma riqueza de toda a população do continente chinês.

Inicialmente, os chineses da diáspora que alcançaram o sucesso, depois foi a vez da China. As Chinatowns - em geral comunidades fechadas nas grandes cidades - são o cerne da diáspora chinesa. Como o cientista político Lucien Pye observou: "Os chineses percebem uma diferença tão absoluta entre si próprios e os outros, que inconscientemente acham natural referir-se aos cidadãos do país que os acolheu como estrangeiros."

Enquanto o estilo americano transforma os outros, as Chinatowns ensinam seus habitantes a se ajustar - a tirar proveito das normas e dos negócios dos anfitriões permanecendo separados. Enquanto os americanos levantam sua bandeira, os chineses se esforçam para ficar invisíveis. As comunidades chinesas do mundo todo conseguiram se tornar influentes em suas novas pátrias sem constituir uma ameaça. Mantiveram-se fechadas, não transparentes, sem provocar irritação. Ter uma ponte com a China sem aparecer como uma quinta coluna.

Pelo fato de a China se preocupar com a adaptação, não com a transformação, ela dificilmente mudaria o mundo de maneira drástica caso assumisse um lugar de liderança global. Mas isso não significa que não exploraria esse mundo para seus próprios fins. Os EUA, pelo menos em termos teóricos, preferem que outros países compartilhem dos seus valores e ajam como americanos.

A China só poderia temer um mundo no qual todos agissem como os chineses. Portanto, num futuro dominado pela China, os chineses não estabelecerão as regras. Ao contrário, procurarão tirar o maior benefício possível das já existentes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.