Quando a liberdade é teimosa

As emoções que tomaram conta dos eleitores na simbólica votação pela independência da Catalunha

NATÀLIA RODRÍGUEZ, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2014 | 02h00

Se alguém me perguntasse qual é a imagem mais extraordinária que pode se imortalizar hoje, eu me atreveria a responder o seguinte: uma fila de pessoas aguardando para depositar seu voto. Seja no Afeganistão, no Brasil, no Uruguai, na Índia ou na Catalunha, o poder da imagem de um senhor de 96 anos votando com lágrimas nos olhos ganha de tudo. Essas lágrimas dissolvem os temores, as dúvidas e a preguiça. Porque, não nos enganemos, mudar o mundo dá muita preguiça.

Na Catalunha, a "guerra" é travada pelo significado concreto de palavras como liberdade, identidade, soberania, povo, Estado, nação, legalidade e legitimidade. O castelhano é uma língua rica em semântica, mas o governo espanhol é pobre no seu uso. Madri se aferra à consistência das definições e não permite que o sinônimo desempenhe nenhum papel.

Quem determina o que é legal? Eles dirão que as leis, mas ficam tímidos. E a identidade? Quem determina nossas identidades nas sociedades líquidas? E, sobretudo, quem pode estabelecer limites à escolha daqueles instrumentos que nos permitem nos sentirmos identificados com nossos congêneres?

O governo de Mariano Rajoy diz que "tolerou" o processo participativo catalão como uma forma de liberdade de expressão. Desde quando a liberdade de expressão se tolera em uma democracia? Ela deve ser, isso sim, protegida, celebrada e potencializada. Tolerar é coisa de ditaduras disfarçadas.

A realidade catalã atual é complexa e poliédrica. Talvez não seja legal, mas é legítima. As leis podem não acompanhar os anseios, mas são os anseios que obrigam a mudar as leis.

Na Espanha, fala-se do problema catalão desde o século 19. José Ortega y Gasset já propunha "tolerá-lo", suas palavras, digamos, caíram em ouvidos surdos. O problema catalão aparece em cada geração, teimoso e reforçado por essa legitimidade que outorga a consistência no tempo. O problema catalão é a cidadania catalã, que insiste em reivindicar sua identidade, que insiste em reinventar palavras, em trazê-las ao dia, em jogar com os sinônimos, em levar a linguagem aos extremos, para que o que se diga seja real e seja o real que conforme o legítimo - e não o contrário.

Para acabar de complicar tudo, o catalão é uma teimosia transversal. Na Catalunha, a reivindicação nacional começa no berço e termina no túmulo. Pode alguém se juntar no caminho e "tornar-se independentista"?

Sem dúvida, independentistas de última hora existem às pencas, mas não existiriam sem a perseverança dos que jamais duvidaram. Um amigo meu o define à perfeição em seu status no WhatsApp: "Algumas vezes me engano, mas jamais duvido". Talvez seja um exagero, mas é um exagero com propósitos e objetivos claros.

No dia 9, as emoções governaram mais de 2,3 milhões de pessoas - e analisar emoções é mais difícil do que parece. Mas, quando Juli Espanyol (com os sobrenomes é assim, ninguém escolhe o seu) não conseguia introduzir seu voto na urna por culpa da tremedeira que lhe produzia o choro emocionado e sentido - de um trabalhador nascido em Ubeda, Jaén, que chegou à Catalunha aos 4 anos e por lá deu o sangue para fazer sua família progredir -, chegou seu neto (que também reluz o espanhol no sobrenome e também e se chama Juli). Agarrando-lhe a mão, ele lhe disse: "Abu, ya meto yo el voto". O voto desse avô de 96 anos foi mais um nesse dia, a imagem foi mais uma, o momento mais um, mas é à base dessas imagens, desses momentos, é à base desses votos, que nós, catalães, estamos construindo o futuro, porque não nos podem reprimir o passado, porque a legalidade não pode determinar a identidade e porque a liberdade é uma fila de gente aguardando teimosa e pacificamente para depositar seu voto em uma urna. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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