Quando a retórica fica perigosa

Fareed Zakaria, The New York Times

07 Setembro 2015 | 02h01

Como os 17 candidatos republicanos tentam se fazer notar e 16 lutam para competir com Donald Trump, não devemos nos surpreender com toda essa retórica demente e ideias bizarras. Nos últimos dias, Chris Christie propôs que todos os visitantes legais que vêm aos Estados Unidos sejam monitorados a cada minuto, como os pacotes da FedEx. Mike Huckabee comparou o Planned Parenthood (Planejamento Familiar) ao Estado Islâmico, pois ambos "cortam as cabeças das pessoas". E nem cheguei a Trump.

A pior parte desse extremismo é suportada pelos imigrantes, especialmente os mexicanos. É grosseiro e repulsivo, mas no final das contas inconsequente. As políticas propostas nunca serão aprovadas ou implementadas. E embora os mexicanos estejam profundamente ofendidos - e com razão - seu país tem de encontrar uma maneira de viver em paz com seu gigantesco vizinho do norte. Nada disso vale para a China, o novo alvo da retórica extremista republicana. Hoje o país é a segunda maior economia do mundo e quase duas vezes e meia maior do que a terceira, o Japão. Mesmo que seu crescimento desacelere substancialmente, o país continuará a ter efeitos sísmicos sobre o sistema global.

Scott Walker declarou que a iminente visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, deveria ser cancelada. Marco Rubio disse que permitiria a vinda de Xi, mas reduziria o nível da visita e a utilizaria como uma oportunidade para "falar sem rodeios a esse governante autoritário". Num discurso anunciado cujo objetivo seria delinear sua política externa, Rubio afirmou que a China é "uma ameaça crescente aos nossos interesses econômicos" e "um perigo cada vez maior à nossa segurança nacional". Christie disse que Washington necessita de um "enfoque militar" com relação à China. Trump vai além e é mais vulgar.

Perguntei a um respeitado político no campo da política externa e membro do Partido Republicano, Henry Kissinger, o que pensa dessa retórica. "É uma insensatez", afirmou. "Mas uma insensatez perigosa. Pode ter repercussões extremamente graves."

Também perguntei ao conservador Hank Paulson, o último secretário do Tesouro republicano, que visitou a China mais de 100 vezes nos últimos 25 anos e negociou com os chineses como empresário e representante do governor. "Essa reunião de cúpula significa muito para ambos os países e é uma oportunidade para concluirmos coisas importantes. Mas, particularmente, como a China está às voltas com alguns problemas econômicos internos, se faltarmos com o respeito ou exagerarmos nossa posição de força, eles podem acabar questionando sua capacidade para trabalhar conosco. Seria terrível para os dois países."

Parte do problema é o fato de o governo da China continuar uma caixa-preta e poucas pessoas compreenderem o que está ocorrendo no país - o que facilita atribuir intenções malignas a qualquer movimento feito por Pequim. É o caso, por exemplo, da recente decisão do Banco Central da China de deixar sua moeda desvalorizar - o que foi imediatamente denunciado pelos políticos em Washington como tentativa de inundar o mercado americano de produtos baratos.

Nos últimos anos o yuan estava excessivamente valorizado frente ao dólar e o iene. O governo chinês parece ter respondido à pressão ocidental e permitiu que as forças do mercado comandassem - o que, nesse caso, provocou a desvalorização da moeda. Por isso o Fundo Monetário Internacional elogiou a decisão de Pequim. E quando a desvalorização do yuan foi longe demais Pequim despendeu US$ 200 bilhões para sustentar a moeda. Como ocorreu nas bolsas, as políticas adotadas por Pequim têm sido inconsistentes e ineficazes, mas não significa que são funestas.

"A partir do que ouvi, qualquer pessoa imaginaria que a China decidiu adotar uma série de medidas econômicas e militares que ameaçam os Estados Unidos. O fato é que a China está em meio a uma enorme transformação, econômica e política. A turbulência interna no país hoje pode ser comparada à Revolução Cultural", disse Kissinger. E, ele observou, será muito melhor para os Estados Unidos se a China fizer esta transição para uma economia mais estável com sucesso e não fracasse.

A retórica republicana com relação à China, México e imigração revela uma decomposição da visão ideológica e da disciplina interna do partido. Durante décadas os republicanos defenderam o internacionalismo, o engajamento e o livre mercado. Em 2016 é bem possível que o candidato indicado pelo partido seja um populista, nativista e protecionista.

As consequências desse novo clima, propenso a atacar a China, podem ser graves. "Pode suceder que, com o tempo, vamos concluir que não é possível cooperar com a China", afirmou Kissinger. "Mas temos de esgotar todos os esforços para mantermos uma relação construtiva e séria. Caso contrário, as tensões se formarão, os mal-entendidos aumentarão, e a minha preocupação é a de nos encontrarmos num ambiente similar ao da Europa antes da 1.ª Guerra - uma guerra que ninguém desejava, mas não sabia como terminar." / Tradução de Terezinha Martino

* Fareed Zakaria é colunista

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