Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
AP
AP

Quando Baltimore ardeu

A verdadeira crise nos EUA é sua própria complacência com a negação sistemática de oportunidades iguais para todos

NICHOLAS KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2015 | 02h01

Os conservadores têm sido, às vezes, demasiadamente rápidos em desculpar a violência policial. É abusivo quando policiais usam força excessiva contra jovens negros desarmados, que têm uma probabilidade 21 vezes maior que jovens brancos de serem mortos a tiro pela polícia. É abusivo também que manifestantes saqueiem lojas ou ataquem agentes policiais.

Portanto, uma salva de palmas para Toya Graham, a mãe de Baltimore captada em vídeo agarrando seu filho adolescente na rua e arrastando-o para casa. O rapaz murchou: deve ser humilhante ser um manifestante "durão" num momento e, depois, ser violentamente advertido diante de seus pares e enviado para seu quarto.

"É o meu único filho e no fim do dia não quero que ele seja um Freddie Gray", disse Toya mais tarde à CBS News. Como se sabe, foi a morte de Gray, após ser ferido sob custódia da polícia, que desencadeou o protesto.

Na mídia social, muitas pessoas veicularam desculpas para os manifestantes - um refrão comum era "nada melhor para chamar a atenção". Mas para seu grande mérito, os líderes negros deram uma firme orientação moral e enfatizaram que a violência nas ruas era injusta.

O presidente Barack Obama estabeleceu o tom certo. "Quando indivíduos pegam pés de cabra e começam a forçar portas para saquear, não estão protestando. Estão roubando", disse Obama.

No entanto, como Obama e outros líderes notaram, há desigualdades subjacentes cruciais que demandam atenção. Os tumultos distraem dessas desigualdades, que são, de longe, a maior dívida das cidades americanas.

Isso representa também um fracasso de nossa parte na mídia noticiosa americana. Focamos as câmeras de TV no drama de uma loja da CVS ardendo, mas ignoramos o catastrófico sistema escolar falido, o desemprego, as crianças sem pais, a heroína, o policiamento opressivo e, quem sabe, o pior tipo de pobreza de todos, a desesperança.

As injustiças sofridas por Freddie Gray começaram cedo. Quando menino, ele sofreu envenenamento por chumbo (como ocorreu com 535 mil crianças americanas de 1 a 5 anos), que foi associado a deficiências mentais permanentes e taxas de criminalidade mais altas.

No bairro de Gray, um terço dos adultos não completou o ensino secundário. A maioria dos moradores entre 16 e 64 anos está desempregada.

Os moradores negros de Baltimore encontraram, com frequência, não só crime e insegurança, mas também uma aplicação da lei injusta e racista.

Michael A. Fletcher, um repórter americano negro que viveu por muitos anos na cidade, escreveu em The Washington Post que quando o carro de sua mulher foi roubado, um policial de Baltimore lhe explicou curto e grosso a estratégia do departamento para recuperar veículos: "Se vemos um grupo de jovens negros num carro, nós o obrigamos a parar."

Da mesma forma, a prisão de Baltimore foi notória por corrupção e controle por gangues. Uma investigação federal revelou que um líder de gangue na prisão gerara cinco filhos com quatro guardas femininas.

Condições miseráveis são encontradas, em certa medida, em partes de muitas cidades, e Shirley Franklin, a ex-prefeita de Atlanta, contou que quando nós as toleramos, toleramos uma mistura combustível.

"Não se trata apenas do uso de força pela polícia", disse ela. "Trata-se de um sistema que não está enfrentando as necessidades dos jovens. Eles estão francamente explodindo e a questão da força policial é apenas um catalisador de sua expressão de frustração por serem excluídos", acrescentou.

Os brancos às vezes comentam ironicamente sobre uma "cultura de queixas" dos negros. Mesmo? Quando magnatas como Stephen Schwarzman grasnam que a eliminação de brechas fiscais era como a invasão da Polônia por Hitler, isso é uma cultura de queixas.

Se pais brancos ricos descobrissem que seus filhos foram prejudicados por envenenamento por chumbo, designados para escolas péssimas, barrados de qualquer possibilidade de avançar, mais passíveis de acabar na prisão do que na universidade, perseguidos e mortos pela polícia, aí sim certamente ouviríamos rugidos de queixas. E eles estariam no direito de vociferar: pais de todas as cores deveriam protestar, pacificamente, mas em alto e bom som, sobre tais injustiças.

Tivemos meses de incidentes policiais tocando num delicado subtexto de raça, mas não está claro que estejamos tirando lições. Sugiro que já é hora de voltar uma Comissão de Verdade e Reconciliação e explorar a desigualdade racial nos Estados Unidos.

A verdadeira crise não é uma noite de jovens tumultuando nas ruas. É algo talvez ainda mais imperdoável - nossa própria complacência com a antiga negação sistemática de oportunidades iguais para pessoas com base na cor de sua pele e em seu código postal. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.