FADEL SENNA / AFP
FADEL SENNA / AFP

Quando estão de folga de combates, soldados líbios recorrem a jogo online de guerra no celular

Jovens que defendem o território do Governo de Acordo Nacional, apoiado pela ONU, dividem suas horas entre a troca de tiros na vida real e nas partidas de Playerunknown's Battlegrounds (PUBG); alguns dizem que jogam até mesmo durante os confrontos

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2019 | 16h13

TAJURA, LÍBIA - É um dia de descanso e Abdelaziz e seus companheiros na Líbia soltaram suas armas, mas ainda estão em guerra, desta vez em seus celulares no jogo online Playerunknown's Battlegrounds (PUBG).

Com mais de 360 milhões de downloads no mundo, PUBG é um jogo do estilo Battle Royale, no qual o vencedor é aquele que sobreviver ao final da rodada. Ele foi proibido no Iraque por incitação à violência e pelos "efeitos negativos na saúde, educação e a segurança da sociedade". O Nepal e o Estado indiano de Gujarat também não permitem sua execução.

Na Líbia, no entanto, PUBG causa furor. Incluindo no front de batalha, onde há quase dois meses as forças leais ao Governo de Acordo Nacional (GNA, em inglês) - endossado pelas Nações Unidas - e as do Marechal Khalifa Haftar se enfrentam pelo controle da capital Trípoli.

"Jogamos quando voltamos do front e às vezes até durante as batalhas", diz com a voz rouca Abdelaziz Burawi. Este jovem de 25 anos e seus companheiros de um batalhão em Misrata, cidade a leste de Trípoli, lutam ao lado das forças pró-GNA em An Zara, um subúrbio de Trípoli.

"Aprendemos truques"

Sob um toldo, ele e seus colegas, quase todos com seus vinte e poucos anos, colocam sobre a mesa seus fuzis Kalashnikov remendados com fita adesiva e os lançadores de foguetes RPG. Eles pegaram seus telefones, se conectaram à rede e escolhem cuidadosamente as roupas de seus avatares, alguns deles bem chamativos e outros mais discretos.

Em poucos minutos estão prontos para jogar PUBG: eles saltam de um avião (é assim que começam todas as missões em que até cem jogadores lutam para sobreviver), devem coletar armas, eliminar outros e o último a sobreviver, vence o jogo.

"Descobri o jogo há um ano graças aos alguns colegas, experimentei por curiosidade e me fascinou", diz Burawi. 

"À noite a gente joga, a gente não dorme!", afirma outro combatente, rindo. "De manhã, ao meio dia ou à meia noite, precisamos jogar", completa Mohamed Shaafi, de 19 anos. "Isso nos excita e até podemos aprender truques (para combater): onde procurar inimigos, como escalar, como treinar... Nos motiva quando jogamos antes de ir para o front", explica.

"Entre a vida real e o jogo"

Dos telefones celulares saem os primeiros disparos das armas. Sem desviar o olhar da tela, os quatro jovens conversam entre si como se estivessem em combate: "Tem alguém debaixo da árvore, tenha cuidado!", "Saia!", "Você está longe!", "Não está com armas?", "Estou aqui, não se preocupe", são algumas das mensagens mais comuns.

Para Burawi, os adversários virtuais são os mesmos que aqueles que combate nas ruas destruídas de Ain Zara: "os aliados de Haftar".

"O front é PUBG na vida real. Por isso gostamos tanto deste jogo", diz com um sorriso no rosto Akram, sem informar seu sobrenome. Ele acompanha a disputa enquanto os outros jogam nos celulares.

"Há uma grande diferença entre a vida real e o jogo. No jogo, quando você morre ainda pode voltar. Na vida real, é o seu fim", brinca Burawi.

Mohamed Shaafi quase prefere a realidade do front. "No jogo, quando você está gravemente ferido e pede ajuda, ninguém vem. Em solo, eles vêm para ajudá-lo", diz o jovem que estava com a perna enfaixada.

Depois de dez minutos de partida, um deles levanta a cabeça. Ele está chateado e solta o celular: "Fiquei sem bateria". / AFP

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