Quando o interesse nacional derrota a norma global

Países como China, Israel e Índia só pensaram em si ao avaliar a anexação da Crimeia pela Rússia; ao ignorar a linha histórica de sua política externa, erraram

FAREED ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2014 | 02h06

A agressão russa na Ucrânia teve o efeito de unir as democracias ocidentais, pelo menos ao condenarem energicamente essa ação. Entretanto, em outras partes do mundo, constata-se uma variedade de respostas, num prenúncio da grande tensão no panorama internacional do século 21 - entre normas globais e interesses nacionais.

Vejamos, por exemplo, a resposta da Índia, a democracia mais populosa do mundo. Nova Délhi permaneceu calada na maior parte do tempo durante os eventos de fevereiro e início de março, recusou-se a apoiar qualquer sanção contra a Rússia e seu assessor de segurança nacional declarou que a Rússia tem interesses "legítimos" na Ucrânia - o que levou Vladimir Putin a agradecer o favor em telefonema para o premiê indiano.

A reação da Índia pode ser explicada por seus profundos vínculos com a Rússia. De 2009 a 2013, 38% das armas de grande porte exportadas pela Rússia destinaram-se à Índia, muito mais do que as compradas por qualquer outro país (e mais de três vezes o volume exportado para o segundo importador, a China, 12%). Além disso, 75% das armas de grande porte adquiridas pela Índia foram procedentes da Rússia (apenas 7% dos EUA). No mesmo período, a Rússia vendeu à Índia um porta-aviões e um submarino nuclear - o único do mundo exportado naqueles anos.

Além disso, enquanto os EUA retiram suas tropas do Afeganistão, a Índia está consciente de que o Paquistão tentará preencher o vazio, usando como seus representantes o Taleban e outros grupos que frequentemente empreenderam ações terroristas contra indianos. No grande jogo que se desenrola no noroeste asiático, a Rússia costumava apoiar o Paquistão. Ocorre que, hoje, a situação é diferente. Os EUA são inimigos do Taleban e entraram repetidamente em conflito com o Paquistão a respeito da questão do terrorismo, mas os velhos hábitos custam a desaparecer, para todo mundo.

A reação mais curiosa foi a de Israel, a nação mais pró-EUA do planeta. O país, que em geral apoia todas as iniciativas americanas em política externa, está determinado a não apoiá-las nessa questão. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu mostrou-se inusitadamente circunspecto: "Espero que a questão ucraniana se resolva rapidamente e de maneira amistosa, mas tenho suficientes problemas para resolver do meu lado". O chanceler Avigdor Lieberman foi mais explícito e definiu EUA e Rússia em termos iguais. "Mantemos ótimas relações de confiança mútua com americanos e russos e nossa experiência tem sido bastante positiva com ambos. Portanto, não entendo por que Israel deveria se envolver na questão ucraniana", afirmou.

Autoridades israelenses explicaram em particular que não querem isolar a Rússia porque precisam de Moscou em seu esforço para fazer frente a inúmeras ameaças - principalmente o Irã, mas também as decorrentes da guerra civil síria. Há também quem acredite que Israel pode criar um relacionamento especial com Moscou, em razão de sua relação com centenas de milhares de judeus russos que emigraram para Israel, onde ascenderam aos mais altos escalões do poder político. Lieberman comentou esta semana, no Brooklyn, que, no futuro próximo, o primeiro-ministro de Israel poderá ser de língua russa. Quando Lieberman se reúne com Putin ou com o chanceler Serguei Lavrov, eles falam russo, primeira língua de Lieberman.

O que não surpreende é que a China também não pretenda condenar nem castigar a Rússia. Mas sua posição tem sido um pouco diferente, recusando-se a endossar, de qualquer maneira, as ações de Moscou, enfatizando seu apoio a "independência, soberania, e integridade territorial" da Ucrânia.

Poderíamos afirmar que, nos três casos, os países estão interpretando de maneira equivocada seus interesses nacionais. Uma enorme fronteira separa a Rússia da China e evidentemente Pequim não haveria de querer apoiar a Rússia em suas iniciativas para "corrigir" suas fronteiras pela força. Seria uma loucura para Israel comprometer suas relações com seu mais importante aliado, os EUA, por uma ilusória aliança com Moscou. O fato de Lieberman falar russo não impediu que Moscou enviasse armas ao Irã, à Síria e ao Hezbollah (através da Síria). A Índia, por sua vez, deve querer um relacionamento muito mais próximo com Washington, pois precisa fazer frente à China em ascensão nas suas adjacências.

Além dessas limitadas considerações, há outra bem mais importante. Será que esses países pretendem viver num mundo totalmente governado pela interação de interesses nacionais? Desde 1945, há esforços cada vez maiores para o estabelecimento de normas globais de maior alcance - por exemplo, contra as anexações forçadas.

Nem sempre elas foram obedecidas, mas em comparação com o passado contribuíram para um mundo mais pacífico e próspero. Na próxima década, dependendo de como as novas potências emergentes se comportarão, essas normas se fortalecerão ou acabarão se enfraquecendo definitivamente. E essa será a diferença entre a guerra e a paz no século 21. / Tradução de Anna Capovilla

FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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