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Gilles Lapouge
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Quando o líder cristão encontra o herdeiro de Abu Dhabi

Os Emirados Árabes Unidos nos deram imagens de paz que confirmam que na península há um polo tolerante

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2019 | 05h00

Parece um sonho, ou a invenção de um poeta: neste século tão dilacerado, tão violento e de uma sangrenta intolerância, dois homens conversam em Abu Dhabi. Um é o líder dos cristãos, o soberano pontífice Francisco, infatigável apóstolo da reconciliação, tolerância, perdão. O outro é o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, o homem forte dos Emirados Árabes Unidos.

O restante da visita do papa não ofuscou essa imagem soberba, meio futurista, com os aviões de guerra deixando no céu fumaça amarela e branca nas cores do Vaticano, quando o papa chegou ao palácio presidencial escoltado por guardas a cavalo. Após o papa, sucederam-se os dignitários mais respeitados da religião muçulmana (sunita).

Todas as intervenções do papa foram belas, com referências à Bíblia (a Arca de Noé), a São Francisco de Assis, aos Evangelhos. Ele parecia ainda mais relaxado do que em Roma – uma verdade nem sempre doce, em razão das armadilhas que diferentes facções do Vaticano (financeiras, teológicas e morais) gastam seu tempo para enviar sob os pés do adversário. Em sua sabedoria, o papa não esqueceu de desejar que o apaziguamento e quase o reencontro entre religiões não permita esquecer da outra grande religião do Livro, a judaica.

Assim, o emirado de Abu Dhabi nos deu imagens de paz, tolerância e fraternidade, que confirmam que na Península Arábica há um polo tolerante (os Emirados) e um polo onde a intolerância é uma “segunda religião”, a Arábia Saudita. Mas alguns mais contestadores apontam que os sete emirados estão povoados por 9 milhões de habitantes e destes há 90% de trabalhadores imigrantes da Ásia e do Sudeste Asiático para os quais os Emirados não são uma antecâmara do paraíso.

É certo que, em nome deste Islã, que permaneceu fiel a suas origens, os emirados concedem a esses imigrantes a liberdade de culto que seria surreal procurar no grande reino sunita vizinho, a Arábia Saudita. Por exemplo, existem 30 igrejas cristãs em 3 desses emirados. 

Os jornalistas que acompanharam o papa Francisco tiveram até mesmo direito a uma visão estranha: uma mesquita com o nome do príncipe herdeiro Mohamed bin Zayed acaba de ser rebatizada de “Maria, Mãe de Jesus”. Também ficamos sabendo que os judeus têm direito a um lugar de oração, o que não é comum na terra sunita.

Essa tolerância nem sempre é encontrada no nível político. Se os monarcas dos sete Estados obedecem à lei da hereditariedade, não é o caso de introduzir o “pluralismo” no campo político. Aqueles que o ignoram logo se encontrarão em uma masmorra.

Poderíamos multiplicar os exemplos de intolerância, o mais sério dos quais pode ser a presença de forças dos Emirados ao lado das legiões da Arábia Saudita que apoiam as forças iemenitas contra os rebeldes houthis. Assunto tabu, ao qual é bom não se referir. Mas o papa não é exatamente bom.

Certamente, ele sabe muito bem que o mundo cristão, católico e protestante, também era, como parte dos muçulmanos de hoje, um imenso “teatro da crueldade”. Mas o papa é uma pessoa idosa. Ele conhece as virtudes da paciência, não apenas em sua pessoa física, mas também em sua memória espiritual. 

A história das religiões, incluindo a sua, às vezes é esplêndida e às vezes é sórdida. Essa história nos dá um duplo conselho, na forma de um paradoxo insuportável: não nos esqueçamos jamais que as religiões, como as pessoas, às vezes, estão bêbadas. E jamais faça concessões. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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