SAFIN HAMED | AFP
SAFIN HAMED | AFP

Quando o necessário é impossível

Para estabilizar o Iraque e a Síria é preciso esmagar o Estado Islâmico, mas principalmente pacificar sunitas e xiitas

Thomas Fiedman, The New York Times

31 de março de 2016 | 07h00

Voltar ao Iraque depois de uma ausência de dois anos me ajudou a pôr o dedo na questão central que atualmente atormenta a política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio: o que fazer quando o necessário é impossível e, no entanto, é impossível ignorar o impossível – e os principais aliados também são impossíveis?

Esmagar o Estado Islâmico é imprescindível para estabilizar o Iraque e a Síria, mas é impossível enquanto xiitas e sunitas nestes países se recusam a compartilhar de fato o poder. E ignorar o câncer do EI e sua capacidade de contaminar toda a região é igualmente impossível. Basta ver o que acontece na Bélgica.

E se tudo isso não for suficientemente impossível, nossa tentativa de preparar o Iraque para a democracia exige que fechemos um olho para o fato de que nosso mais importante “aliado” da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na região, a Turquia, um país democrático está sendo transformado numa ditadura por seu presidente, Recep Tayyip Erdogan. Na realidade, ele deveria ser chamado de o ‘Sultão Erdogan’, pois está fechando os jornais da oposição e processando os jornalistas. Mas como precisamos de bases aéreas e da cooperação da Turquia para promover, amanhã, um mínimo de democracia no Iraque, nos calamos enquanto Erdogan destrói a democracia na Turquia. Vá entender!

E pensar que nos Estados Unidos todas estas pessoas estão concorrendo para a presidência a fim de ter a chance de assumir a responsabilidade de solucionar este problema! Será que ninguém disse a elas que este é o pior momento dos últimos 70 anos para administrar a política externa americana?

Obama tem toda a minha simpatia. Se vocês acreditam que existe uma resposta simples a este problema, deveriam vir para cá por uma semana. De fato, tentem imaginar as divergências existentes entre os partidos curdos e as milícias da Síria e do Iraque – Y.P.G., P.Y.D., P.U.K.. K.D.P. e P.K.K. – eu levei um dia inteiro.

Voltemos ao futuro do Iraque. “O problema deste país não é o EI”, disse Najmaldin Karim, o sensato governador da Província de Kirkuk em parte ocupada pelo EI. “O EI é o sintoma da má administração e do sectarismo.” Portanto, mesmo que o EI seja arrancado de sua fortaleza em Mossul, observou, se as lutas internas e a má administração em Bagdá, e as tensões sectárias entre xiitas e sunitas não forem contidas, “a situação no Iraque poderá se agravar ainda mais” após a derrubada do EI.

Por que? Porque haverá outra terrível disputa entre iraquianos, sunitas, curdos, turcomanos, milícias xiitas, Turquia e Irã a respeito de quem controlará os territórios que hoje estão nas mãos do EI. O fato é que não há um consenso sobre a divisão do poder nas áreas sunitas tomadas pelo EI. Portanto, se algum dia ouvirem dizer que eliminamos o califa Abu Bakr al-Baghdadi do EI, e a bandeira do EI foi abaixada em Mossul, não se apressem em aplaudir.

E há mais um fato nada engraçado ocorrendo no nordeste do Iraque: apesar de tudo o que vocês leram sobre os “combatentes estrangeiros” que ingressaram no EI, a grande maioria das pessoas na Província de Kirkuk que vieram para cá a fim de lutar com o EI é constituída por sunitas locais, que consideram o EI uma maneira de conseguir o poder sobre os sunitas mais ricos da classe alta.

Além disso, muitas tribos sunitas na área de Mossul se dividiram: alguns de seus membros ingressaram no EI e outros não. Segundo funcionários da inteligência curda, ocorrerão atos de vingança contra os sunitas que se uniram ao EI, por obra dos que não se uniram – se e quando o EI for derrotado. Mulheres da seita yazidi do Iraque que foram capturadas e estupradas por combatentes do EI e que conseguiram fugir para campos de refugiados no Curdistão, contaram aos trabalhadores de ajuda curdos que em muitos casos elas foram violentadas, não por combatentes estrangeiros da Chechênia ou da Líbia, mas por sunitas iraquianos de suas próprias aldeias. “Elas jamais voltarão a confiar em seus vizinhos”, observou um trabalhador.

Já não sei o que será preciso para erradicar o EI – e criar uma ordem de verdade em seu lugar – mas é óbvio o que será preciso: a luta entre sunitas e xiitas alimentada pela Arábia Saudita e pelo Irã, precisa reduzir sua intensidade.

O EI é um foguete cujo sistema de direção descende diretamente da ideologia saudita wahabita puritana, antixiita, anti pluralista, e seu sistema de combustão é uma reação direta da agressiva tentativa do Irã xiita de manter os sunitas iraquianos permanentemente fracos. Enquanto Irã e Arábia Saudita mantiverem seu envolvimento haverá sempre outro EI. É por isso que o “processo de paz” de que o Oriente Médio necessita hoje deve ocorrer entre a Arábia Saudita e o Irã.

Mas apenas esperar que isso aconteça também não é uma opção fácil. É impossível ignorar o impossível porque o EI é perverso e perversamente astuto. Quanto mais continuar, mais perigoso se tornará. O jornal Independent da Grã-Bretanha noticiou recentemente que militantes do EI estavam tramando para sequestrar e manter como refém um cientista nuclear belga a fim de ter acesso à central de pesquisas nucleares na Bélgica.

Obama provavelmente está fazendo tudo o que pode para tentar solucionar o problema do Estado Islâmico: humilhá-lo, contê-lo e reduzir sua importância, e continuar exortando sunitas e xiitas para que procurem raciocinar. Mas tenho um mau pressentimento a respeito dos combatentes do EI. Eles usam as redes e abandonaram todas as normas civilizadas. Nós, por outro lado, não temos uma resposta para dar a eles.

Somente árabes e muçulmanos têm de fato condições para desmantelar e impedir a mobilização local do EI, e neste momento o seu campo está demasiado dividido, revoltado, ambivalente e confuso para fazer isso. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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