Quando os Exércitos decidem se apoiam ou não um governo

Chega um momento na vida de praticamente todos os regimes repressivos em que os líderes - e as forças militares que os mantêm no poder - precisam escolher um caminho sem volta: mudar ou começar a matar.

David E. Sanger, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2011 | 00h00

O Exército egípcio, ao ver que não valia mais a pena defender um faraó que perdeu o contato com a realidade, com 82 anos, acabou ficando do lado dos manifestantes, pelo menos durante o primeiro ato. Agindo assim, os militares ignoraram o conselho dos sauditas, para quem Mubarak deveria abrir fogo contra a multidão.

À medida em que os protestos pela democracia contagiavam o mundo árabe na semana passada, as forças militares bem menos disciplinadas do Bahrein decidiram que os sauditas estavam certos. E tiraram duas lições do caso do Egito: se o presidente Barack Obama ligar, desligue. E atire logo.

É cedo para saber como cada reação funcionará. Mas como em quase todos os Estados policiais, a chave para a mudança está nas mãos do Exército. E como em qualquer instituição que quer preservar seus interesses pessoais, os líderes do Exército devem perguntar: "O que vamos ganhar com isso, no longo e curto prazos? A liderança militar do Egito chegou à mesma conclusão que a da Coreia do Sul, nos anos 80, e a da Indonésia nos 90: o principal líder do país deixou de ser um ativo para se tornar um problema".

Nada do que está ocorrendo constituiu uma grande surpresa para a Casa Branca, que, no ano passado, a pedido de Obama, começou a examinar a vulnerabilidade dos regimes da região e analisar o que faz com que uma transição para a democracia seja bem sucedida. "Existem muitos fatores diferentes envolvidos nos casos que examinamos: crises econômicas, ditadores que envelheceram, transições negociadas entre as elites", disse Michael McFaul, assessor de segurança nacional da Casa Branca. "Existem muitos caminhos para a transição democrática e muitos são desordenados."

O Egito começou assim, com batalhas de rua entre polícia e manifestantes. Mas as autoridades americanas dizem que sabiam que os dias de Mubarak estavam contados quando o Exército deixou claro que - salvo casos extremos - não abriria fogo contra a população. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É REPÓRTER DO "NEW YORK TIMES"

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