Yuri Kadobnov/Reuters
Yuri Kadobnov/Reuters

Quando os políticos estão estagnados, a Itália recorre aos tecnocratas

No turbilhão da vida política italiana, desde 1946 os chefes de governo mudam com frequência, em média, a cada 14 meses. E quando a estagnação é total, são os tecnocratas que assumem

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2021 | 06h00

ROMA - No turbilhão da vida política italiana, desde 1946 os chefes de governo mudam com frequência, em média, a cada 14 meses. E quando a estagnação é total, são os tecnocratas que assumem. 

Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE), que nunca ocupou um cargo eleito em seu país, foi designado na quarta-feira para formar um governo após semanas de disputas entre os partidos no poder.

"A cada 10 ou 15 anos, inevitavelmente nos encontramos nas mãos de tecnocratas", diz Lorenzo Castellani, cientista político da Universidade Luiss de Roma. "De vez em quando, precisamos de um choque para trazer o país de volta ao normal."

O primeiro chefe de governo democrata

Carlo Azeglio Ciampi, ex-governador do Banca d'Italia - o banco central italiano -, assim como Draghi, foi o primeiro chefe tecnocrata do governo italiano, liderando um Executivo de especialistas que incluía também algumas figuras políticas.

Ciampi liderou este governo em 1993-1994, período em que o país vivia um escândalo de corrupção nacional revelado pela Operação Mãos Limpas, que devastava os partidos políticos no poder desde a 2ª Guerra.

A Itália, vítima da recessão econômica, também enfrentava uma campanha de ataques organizada pela máfia siciliana.

Ciampi foi substituído pelo magnata da mídia Silvio Berlusconi após sua vitória nas eleições legislativas de 1994, mas permaneceu uma figura pública.

Ele foi ministro da Economia em governos de centro-esquerda no fim da década de 90 e presidente da Itália de 1999 a 2006. Ele morreu em 2016 com 95 anos.

Lamberto Dini, ex-número dois do Banco da Itália, chegou ao poder em 1995, após a queda do primeiro governo Berlusconi, e permaneceu nele por cerca de um ano. Também permaneceu na política, como ministro das Relações Exteriores entre 1996 e 2001.

Monti, o austero

Mario Monti, professor de Economia e ex-comissário europeu, liderou o último governo de tecnocratas da Itália, do final de 2011 a meados de 2013. Ele teve uma tarefa difícil, pois a quase falência da Itália de Berlusconi corria o risco de derrubar toda a zona do euro.

À frente de um governo de unidade nacional, popular no início de seu mandato, Monti colocou as finanças do país em ordem à custa de dolorosas medidas de austeridade.

Sua carreira política foi mais tarde um fracasso, pois o partido de centro que ele fundou para disputar as eleições gerais de 2013 não teve sucesso. Monti é atualmente senador vitalício, nomeado pelo ex-chefe de Estado Giorgio Napolitano.

Draghi será o salvador? 

A tarefa de Draghi é dupla: tirar a Itália da pandemia do coronavírus e reativar sua economia em recessão com uma injeção maciça de fundos europeus.

A Itália espera receber a maior parte do fundo de recuperação europeu - cerca de €200 bilhões, US$ 239 bilhões - mas deve apresentar a Bruxelas um plano de gastos confiável.

"Em vez de impor políticas de austeridade ... terá muito dinheiro para distribuir", disse à agência France Presse Daniele Albertazzi, cientista político da Universidade de Birmingham.

No entanto, embora Draghi seja atualmente considerado um "salvador", a opinião pública pode rapidamente se voltar contra ele, de acordo com Albertazzi. Na Itália, "colocamos as pessoas em um pedestal e atiramos pedras nelas depois de alguns meses"./AFP 

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