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“Depois de cada briga, ela passava uma semana sem falar comigo”, conta Jane, de 24 anos, sobre sua mãe Philip Fong / AFP

Quando os protestos em Hong Kong dividem famílias

Desavenças ideológicas fazem jovens ativistas serem expulsos de casa pelos próprios pais

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 10h04

HONG KONG - Durante semanas, Jane ocultou de sua mãe que participava dos protestos em Hong Kong e fingiu que levava livros na mochila, até que as desavenças ideológicas entre as duas se tornaram tão grandes que a jovem teve de sair de casa.

À medida que as manifestações dos últimos 100 dias se intensificavam, com milhões de pessoas pedindo à China mais liberdade, Jane discutia cada vez mais com sua mãe, que se opõe às ideias do movimento pró-democracia.

“Depois de cada briga, ela passava uma semana sem falar comigo”, conta Jane (pseudônimo), de 24 anos. “Os apartamentos de Hong Kong são pequenos. Apenas uma parede nos separa. Então tive que ir embora.” A decisão foi um golpe emocional porque ela foi criada somente pela mãe.

“Temos passado toda a vida juntas, somente ela e eu, mas não me apoia”, afirma a jovem. “Me sinto impotente.”

Jane se considerava moderada, não como os manifestantes que estão no fronte do movimento ou aqueles que são violentos. Ela ressalta que tentou explicar a sua mãe os objetivos do movimento por mais democracia em Hong Kong, mas não adiantou.

“Ela acredita no que diz a China, que os manifestantes são pagos por estrangeiros, que são bandidos. Nunca acredita em mim”, lamenta.

A ira dos jovens

Os protestos pró-democracia na região semiautônoma, que começaram há três meses e em alguns casos se transformaram em atos de violência, são liderados em grande parte pelos jovens.

As ações foram desencadeadas em razão de um projeto de lei - posteriormente retirado - que havia permitido extradições ao território continental chinês, mas depois foram se transformando em um movimento mais amplo que pede mais liberdade e uma responsabilização pelas ações policiais.

As pesquisas acadêmicas mostraram que metade dos manifestantes tem entre 20 e 30 anos, e que 77% deles têm estudo.

Segundo uma sondagem recente da Universidade de Hong Kong, a porcentagem de cidadãos da ex-colônia britânica que se declaram orgulhosos de serem cidadãos chineses está em seu mínimo histórico: 27%. Quando se observa o grupo com idade entre 18 e 29 anos, a proporção cai a 10%.

Nas pequenas manifestações registradas em Hong Kong a favor de Pequim, os participantes eram maior de idade.

Ainda que participem pessoas de todas as idades do movimento pró-democracia, os manifestantes mais jovens dizem que costumam entrar em choque ideologicamente com seus pais ou parentes mais velhos, que acreditam que a cidade prosperou desde que foi devolvida à China ou temem a reação dos líderes chineses se os protestos se tornaram mais radicais.

"Estavam me chantageando"

Para muitos dos jovens que participam dos protestos, a batalha iniciada nas ruas continua em casa. 

“No começo, comíamos em silêncio. Era tão deprimente que agora não volto para casa até ter certeza que meus pais foram dormir”, conta Chris (pseudônimo), que se formou recentemente e começou a trabalhar em um banco.

“Acredito que é uma questão de educação. Meus pais foram educados na China e não ensinaram a eles sobre democracia e liberdade”, destaca, explicando que seus pais chegaram a Hong Kong na década de 1990 em busca de melhores condições de vida.

“Meus pais querem estabilidade e bonança econômica. Mas quero mais e lutarei por isso”, garante Chris, que se diz cansado e desencorajado. “Não posso falar com meus amigos porque não confio neles, e não posso falar com meus pais sem que gritem comigo.”

Julia, uma estudante de 19 anos, reconhece que as disputas familiares foram uma surpresa para ela. “Não havia me dado conta do quão diferentes somos até este verão”, diz ela.

Os pais de Julia não sabiam que ela estava no fronte das manifestações e que havia entrado em confronto com policiais. Após as brigas por apoio aos protestos, os pais de Julia ameaçaram deixar de ajudá-la financeiramente.

“Estavam me chantageando. No fim, quebrei o cartão de crédito e comecei a mentir sobre tudo”, conta ela, que agora se mantém graças a um trabalho de tempo integral.

Nova vida

Depois que saiu de casa, Jane vive agora com a família de sua namorada, cujos pais também não estão de acordo com o movimento pró-democracia. Mas pelo menos toleram as demais opiniões políticas, por mais diferentes que sejam.

“Nunca falamos disso. Só falamos de gatos”, brinca Julia. “É uma pena que seja um ambiente frágil.” / AFP

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