Quando os rivais se tornam parceiros

Aliança que Roosevelt fez com Wendel Willkie, seu rival na eleição de 1940, é exemplo de que união ajuda na hora da crise

É ESCRITORA, SUSAN , DUNN, THE NEW YORK TIMES, É ESCRITORA, SUSAN , DUNN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h09

"Quer saber? Ele é um sujeito espetacular", disse o presidente a seu secretário do Trabalho, depois de uma reunião na Casa Branca com o adversário eleitoral que ele acabara de trucidar. "É muito talentoso. Quero aproveitá-lo de alguma maneira. Quero oferecer a ele um cargo importante no governo. Você tem alguma sugestão?"

Não, essas não foram as palavras do presidente Barack Obama após o almoço que teve com Mitt Romney na Casa Branca, há uma semana. Foram ditas por Franklin D. Roosevelt a respeito de Wendel Willkie, que ele derrotara na eleição de 1940. E a afeição de FDR pelo rival republicano deu origem a uma parceria lendária.

Obama ofereceu palavras conciliatórias a Romney, mas em que elas darão? Por acaso o presidente acolherá conselhos e auxílio de um homem que, ao longo de vários meses, atacou impiedosamente sua filosofia e suas políticas de governo? O candidato derrotado conseguirá deixar o ressentimento de lado e aguentar as previsíveis críticas que os setores mais radicais de seu partido lhe farão por cooperar com Obama?

Com o país à beira do "abismo fiscal" e ansiando por uma união nacional mais duradoura, a aproximação entre os dois homens seria um resultado excelente.

Nos aterradores idos de 1940, quando um país após o outro sucumbia aos tanques, aviões e bombas de Hitler, e Roosevelt concorreu a um inédito terceiro mandato, sua esperança era montar uma equipe que misturasse democratas e republicanos na área de política externa. Embora a polarização entre os dois partidos fosse quase tão grande quanto é hoje, FDR esperava que a cooperação arrebanhasse mais americanos para a causa antifascista. Assim, na primavera de 1940, Roosevelt indicou dois republicanos de destaque, Henry Stimson e Frank Knox, para os cargos de secretário da Guerra e da Marinha. E, para surpresa geral, foi atrás de Willkie.

Stimson e Knox, como Roosevelt, queriam oferecer todo tipo de ajuda - desde que não implicasse o ingresso dos EUA na guerra - aos Aliados que enfrentavam Hitler. Ambos haviam tido duras disputas com o presidente. Mas, em 1940, Roosevelt deu mostras de que não guardava rancor e o resultado foi que Stimson e Knox foram membros brilhantes do terceiro governo Roosevelt.

A pièce de résistance de FDR foi o cortejo a Willkie, a quem a maioria dos principais jornais do país - incluindo o New York Times, o Washington Post e o Los Angeles Times - haviam apoiado.

Durante a campanha, Willkie lançara toda sorte de acusações contra Roosevelt - até mesmo a de que o presidente "telefonou para Hitler e Mussolini e lhes disse para dar uma punhalada nas costas da Checoslováquia". Mas depois da eleição o republicano repudiou suas declarações, tratando-as como mera "retórica de campanha".

"Nós elegemos Franklin Roosevelt para a presidência", disse Willkie uma semana depois da eleição. "Ele é o presidente de vocês. Ele é o meu presidente."

FDR aproveitou a deixa. Como Simson e Knox, Willkie não fazia concessões à agressão fascista. Em janeiro de 1941, para a consternação dos republicanos isolacionistas, apoiou a lei que permitiria ao governo dos EUA fornecer o material bélico de que os britânicos tanto precisavam, mas pelo qual não tinham como pagar.

Em seguida, na condição de representante pessoal de Roosevelt, Willkie foi à Grã-Bretanha, onde se encontrou com Winston Churchill, visitou áreas bombardeadas. Ao retornar aos EUA, Willkie compareceu a uma audiência no Senado para falar sobre a ajuda à Grã-Bretanha. Os britânicos "são um povo livre. Não vão desistir facilmente daquela ilha. Milhões entregarão suas vidas, antes que isso aconteça."

Após os depoimentos no Senado, Willkie e Roosevelt jantaram juntos no estúdio do presidente. "Willkie veio e ficou até quase meia-noite", recordou depois Grace Trully, a secretária de FDR. "E pelas risadas, ficou claro que estavam se dando muito bem."

Willkie tinha uma mensagem para dar aos colegas republicanos: estavam cometendo um suicídio político ao se aferrar ao isolacionismo. Mas a Casa Branca "tinha uma compreensão equivocada do sistema da livre-iniciativa". De modo que os republicanos tinham uma "oportunidade de ouro" para se restabelecer como partido majoritário, combinando uma visão internacionalista com a revalorização da filosofia da livre-iniciativa.

Com o agravamento da situação na frente de batalha, Roosevelt e Willkie tornaram-se quase uma dupla. Os colunistas dos jornais e os comitês editoriais cobriram Willkie de elogios, mas não a "velha guarda" do Partido Republicano, que iniciou uma campanha para destruir sua influência. Na convenção do partido em 1944, impediram Willkie de discursar para os delegados. Ele morreu em outubro do mesmo ano, um lobo solitário que pagou um preço alto por colaborar com FDR. Apesar disso, conquistou o reconhecimento da história.

Há alguma chance de que Obama e Romney venham a repetir a parceria de Roosevelt e Willkie? Será que o presidente cogita oferecer a Romney uma posição no governo ou pretende incumbi-lo de outra missão crítica?

Tudo depende de Obama e de Romney, claro. Segundo o New York Times, quando a campanha eleitoral se aproximava do fim, Obama percebeu que o desdém que até então ele tivera por Romney o impedira de ver os pontos fortes do republicano.

Roosevelt não nutria tal antipatia por seu rival. Certa vez, Robert Sherwood, que redigia seus discursos, sem querer ouviu o assessor mais íntimo do presidente, Harry Hopkins, falar em tom desmerecedor de Willkie a FDR. "Roosevelt passou a maior descompostura em Hopkins", escreveu Sherwood. "Jamais o vira tão exasperado. Ele disse: 'Nunca mais ouse falar coisa parecida perto de mim. Se não fosse por Willkie, não teríamos aprovado as leis que nos permitiram entrar na guerra. Ele foi uma bênção para o país, quando mais precisamos dele.'" TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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