Quando Putin invadiu meu país

Com a mobilização na Crimeia, presidente russo repete os passos da Guerra da Geórgia

MIKHAIL , SAAKASHVILI, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2014 | 02h03

Em julho de 2008, o governo da Georgia foi submetido a intensas pressões: a Rússia organizava provocações em duas regiões do país e enviava tropas para a fronteira. Quase todos os políticos do Ocidente que se preocupavam com o meu governo, naqueles dias, afirmavam que a Rússia não atacaria e nos instavam a manter a calma e a não reagir às medidas russas.

Meu amigo Otto von Habsburg, um dos políticos mais experientes da Europa, mostrava-se menos otimista. Previu sem meias-palavras que a Rússia atacaria com todo o poderio militar à sua disposição, independentemente do que a Georgia fizesse para evitar.

A história se repete, ele me disse. Poucas semanas mais tarde, dezenas de milhares de soldados russos cruzaram nossa fronteira e os aviões começaram a bombardear 24 horas por dia. Embora Vladimir Putin não tenha conseguido seu objetivo principal, tomar a capital da Geórgia, suas tropas ainda ocupam um quinto do território do meu país.

Há semelhanças impressionantes entre as primeiras fases da agressão russa contra a Geórgia e o que está ocorrendo na Ucrânia. Observando os recentes acontecimentos e a resposta global, continuo pensando que a história se repete - e também em outros exemplos de agressão na Europa.

Nos anos 30, a Alemanha nazista ocupou parte da vizinha Checoslováquia com o pretexto de proteger os alemães étnicos. Hoje, a Rússia diz proteger os russos étnicos - ou seja, pessoas a quem passaportes russos foram distribuídos às pressas - na Crimeia ou nos territórios georgianos. Em setembro de 1938, quando a Alemanha anexou os Sudetos, o primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, definiu a situação como "uma briga num país distante, entre povos sobre os quais nada conhecemos".

Do mesmo modo, hoje alguns perguntam se o Ocidente deveria se preocupar com a Ucrânia, afirmando que a Rússia tem muito mais em jogo do que o Ocidente. No Ocidente, fala-se da necessidade de chegar a algum tipo de acordo com a Rússia, opinião que nos faz lembrar de Munique, há 80 anos. Dizem-se motivados por interesses estratégicos como a não proliferação nuclear e o combate ao terrorismo.

Da mesma forma, com a desculpa de precisar conter a União Soviética e frear a expansão do comunismo, Chamberlain entrou em acordo com Hitler. Agora, evidentemente, sabemos que todas as tentativas de apaziguar os nazistas levaram as grandes potências europeias a entregar um país após o outro a Hitler e acabaram levando à 2.ª Guerra.

Essas catástrofes globais ocorrem quando a ordem internacional estabelecida entra em colapso e a lei não mais se aplica. A Ucrânia é apenas a demonstração mais vívida e recente disso. Imagine se a Ucrânia não tivesse desistido do seu considerável arsenal nuclear nos anos 90? Para persuadir os ucranianos a fazer isso, os EUA e a Grã-Bretanha assinaram com a Rússia acordos que garantiam a integridade do território ucraniano em troca da entrega das armas da Ucrânia à Rússia. E, no entanto, agora, a situação é essa. A União Europeia e a Rússia assinaram um acordo que previa a retirada das forças russas da Geórgia em 2008. A Rússia jamais cumpriu o prometido - fato raramente mencionado pelos europeus que avalizaram o pacto.

Os motivos de Putin são semelhantes aos da Alemanha antes da guerra: ele quer corrigir o que considera um tratamento injusto das potências ocidentais depois da Guerra Fria. E tenta reconquistar territórios perdidos e se apoderar de recursos naturais. Mal se fala dos recursos petrolíferos que a Abkházia tem em alto-mar, confiscados pelo monopólio estatal russo Rosneft, em 2009.

As companhias americanas investiram consideravelmente nos campos de gás de xisto nas costas da Crimeia. Mas, se a Ucrânia se tornasse autossuficiente em energia e até mesmo uma importante exportadora de gás para a Europa, acabaria se transformando num pesadelo para Putin.

Putin desestabiliza seus vizinhos na tentativa de saciar o apetite da Otan e da União Europeia por uma maior expansão. Também considera seus avanços periódicos em territórios estrangeiros como, de certo modo, uma estratégia para o seu rejuvenescimento político interno. Existe uma lógica nessa percepção de ameaças ideológicas. Se a Ucrânia deixasse de ser uma oligarquia corrupta e se tornasse uma verdadeira democracia europeia, os adversários de Putin veriam o contraste - e o benefício potencial de combater sua própria realidade.

Por que motivo o Ocidente deveria se preocupar com o que ocorre na Ucrânia? Estamos vendo não apenas a divisão do maior país da Europa, mas também a proteção da ordem pós-Guerra Fria na Europa. Essa ordem tinha como base normas claras que não só protegem os pequenos países, como também garantem a estabilidade e a prosperidade dos grandes, protegem as minorias e solucionam conflitos por meio de mecanismos pacíficos. Basta pensar nas eventuais consequências se as fronteiras de todo o continente se transformassem em linhas étnicas.

Se não existissem mais leis, seria inevitável um ciclo de violência e destruição. Esse resultado ainda poderá ser evitado. As sanções que os EUA anunciaram na quinta-feira são um primeiro passo positivo. Deveriam ser implementadas imediatamente, mas, por outro lado, a Europa precisaria reforçar sua resposta.

Ucrânia, Geórgia e Moldávia deveriam ter direito a um processo mais ágil de integração à UE e serem beneficiadas por planos de ação por sua adesão para que a Otan pudesse demonstrar que a Rússia não pode alcançar seus fins lançando mão de meios ilegais.

Não precisamos de outros visionários como Churchill para saber o que acontecerá em seguida. As democracias de hoje têm experiência suficiente. Utilizando-a com bom senso e um pouco de coragem, poderemos evitar o pior. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

FOI PRESIDENTE DA GEÓRGIA DE 2004

A 2013. LECIONA NA FLETCHER SCHOOL OF LAW AND DIPLOMACY DA

TUFTS UNIVERSITY

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