Jeenah Moon/Reuters
Jeenah Moon/Reuters

Quantas pessoas realmente morreram por coronavírus em Nova York?

Epidemiologistas, autoridades da cidade e profissionais da saúde dizem que números estão muito abaixo da estatística real

Ali Watkins e William K. Rashbaum / The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 11h57

NOVA YORK - Nos primeiros cinco dias de abril, 1.125 pessoas foram declaradas mortas em suas casas ou nas ruas da cidade de Nova York, mais de oito vezes o número de mortes registradas no mesmo período de 2019, segundo o Corpo de Bombeiros.

Muitas dessas mortes foram provavelmente causadas pela covid-19, mas não foram contabilizadas nos registros de coronavírus dados pelo governador Andrew Cuomo durante suas coletivas diárias - estatísticas que são vistas como medidas-chave do impacto do surto.

Na quinta-feira, Cuomo disse que 799 pessoas em Nova York morreram de coronavírus em um único período de 24 horas - mais de 33 por hora - elevando o total do estado para 7.067.

Mas epidemiologistas, autoridades da cidade e profissionais da saúde dizem que esses números provavelmente estão muito abaixo do número real de mortes na cidade. Os dados sobre a morte de pessoas em suas casas ou na rua mostram que as estatísticas do estado não contam a história toda. Aqui está o que sabemos:

Quem está sendo incluído na contagem de mortes?

Cuomo disse na quarta-feira que os números oficiais de óbitos apresentados diariamente pelo estado são baseados em dados de hospitais. Nosso entendimento mais conservador agora é que os pacientes que testaram positivo para o vírus e morrem em hospitais entram na contagem oficial de mortes no estado.

Mas a cidade tem uma medida diferente: qualquer paciente que teve um exame que confirmou a infecção por coronavírus e depois morreu - seja em casa ou em um hospital - está sendo contado como uma morte por coronavírus, disse o Oxiris Barbot, responsável pelo Departamento de Saúde da cidade. "Até o momento, registramos apenas pessoas que fizeram o teste", disse ela na quinta-feira pela manhã.

Então, quem não está sendo contabilizado? Um número impressionante de pessoas está morrendo em casa com supostos casos de coronavírus, e não parece que o estado tenha um mecanismo claro para registrar essas vítimas na contagem oficial de mortos.

Nos últimos três dias, 766 pessoas foram encontradas mortas em suas casas, elevando o total nos primeiros oito dias de abril para 1891, de acordo com o departamento de medicina legal da cidade. É provável que muitos não tenham sido contabilizados no registro atual.

Os paramédicos não estão realizando testes de coronavírus naqueles que declaram mortos. A política recente do Corpo de Bombeiros diz que as determinações de morte em ligações de emergência devem ser feitas no local, em vez de os paramédicos levarem pacientes a hospitais próximos, onde, em teoria, os profissionais de saúde poderiam realizar testes post mortem.

É quase impossível dizer quantos desses 1.125 pacientes que morreram em casa ou na rua nos primeiros cinco dias de abril tiveram coronavírus - alguns podem ter sido previamente testados antes de sua morte e nunca foram admitidos em um hospital ou foram enviados para casa.

Mas a discrepância entre os registros de mortes do Corpo de Bombeiros deste ano, no auge da epidemia, em comparação com os do ano passado, sugere que muitos dos que morreram provavelmente foram infectados.

“O motivo desse grande aumento nas mortes em casa é a covid-19. E algumas pessoas estão morrendo diretamente por isso e outras indiretamente, mas é o trágico fator 'X' aqui”, disse o prefeito Bill de Blasio na quinta-feira. Algumas das mortes de pessoas em casa ou na rua não estavam relacionadas ao vírus.

Também não sabemos realmente como cada uma das dezenas de hospitais e instalações médicas da cidade estão contando seus mortos. Por exemplo, se um paciente que se presume ter coronavírus é internado no hospital, mas morre lá antes de ser testado, não está claro como ele pode ser considerado na contagem formal de mortos.

Por que não temos um número exato?

Não existem realmente mecanismos para se ter um método imediato e eficiente para calcular o número de mortos durante uma pandemia. Procedimentos normais são geralmente abandonados rapidamente em uma crise como essa.

Por exemplo, quando alguém morria em casa há seis meses, um processo bastante sério era iniciado: os paramédicos, se fossem chamados, declarariam a pessoa morta no local ou a transportariam para o hospital, onde os médicos a declarariam morta, atestariam a morte e diriam a causa dela.

O corpo seria levado para uma funerária ou para um necrotério - se uma autópsia fosse necessária. A morte seria certificada por um médico responsável ou pelo departamento de medicina legal da cidade. Ou, se alguém morresse em um hospital, um médico atestaria a morte e o corpo seria levado por um serviço mortuário ou para o necrotério. Os médicos de família também poderiam atestar a morte.

Durante a pandemia de coronavírus, esses procedimentos são incompatíveis na melhor das hipóteses. Os médicos estão lutando para atestar as mortes com rapidez suficiente. O departamento de medicina legal, que normalmente só estaria envolvido se uma morte fosse suspeita ou exigisse mais estudos, agora está encarregado de recolher e armazenar corpos até a pandemia diminuir.

Os paramédicos não estão transportando pacientes que não reagem aos hospitais, a menos que encontrem imediatamente um pulso. Os corpos estão se acumulando nos necrotérios do hospital e nos caminhões frigoríficos alinhados com prateleiras improvisadas porque as instituições estão sobrecarregadas com os mortos e moribundos. Poucas dessas instalações, quando há, estão realizando testes post-mortem.

"Estamos fazendo todo o possível para expandir a capacidade do necrotério da cidade e ajudar as pessoas a buscar os corpos de seus entes queridos em tempo hábil", disse Aja Worthy-Davis, porta-voz do departamento de medicina legal da cidade.

Tanto esse departamento como o de Saúde, ela disse, "estão trabalhando juntos para entender melhor como incluir as mortes que não ocorreram em hospitais e as por causas naturais na contagem de mortes em toda a cidade".

Algum dia saberemos quantas pessoas realmente morreram?

Contar os mortos após a maioria dos desastres - um acidente de avião, um furacão, uma explosão de gás, um ataque terrorista ou um tiroteio em massa, por exemplo - não é complexo.

Mas um vírus levanta uma série de questões mais complicadas, de acordo com Michael A.L. Balboni, que há cerca de uma década atuava como chefe do departamento de segurança pública do estado e agora dirige uma associação de casas de repouso com fins lucrativos na área de Nova York e uma empresa de consultoria em gerenciamento de crises.

"Um vírus apresenta um conjunto único de circunstâncias para uma causa de morte, especialmente se o alvo for o idoso, devido à presença de comorbidades", disse ele - várias condições. Por exemplo, uma pessoa com covid-19 pode acabar morrendo de ataque cardíaco.

"À medida que o número de falecidos aumenta", disse Balboni, "o mesmo acontece com a imprecisão em determinar a causa da morte". Oxiris disse que a cidade pretende fazer todo o possível para obter uma contagem precisa de mortes. "Penso que, como cidade, faz parte do processo de cura poder passar pelo luto e lamentar por todos aqueles que morreram por causa da covid-19", disse ela. Mas não está claro como o departamento de medicina legal da cidade alcançará esse objetivo. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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