'Quanto mais atacam, mais fortes ficamos'

Para urbanista, luta dos estudantes, que começou na Praça Taksim, é pela liberdade política e de expressão

Entrevista com

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2013 | 02h06

Os protestos contra o governo da Turquia ultrapassaram as críticas ao projeto urbanístico de uma praça de Istambul. A opinião é da doutora em urbanismo Ipek Yada Akpinar, professora da Universidade Técnica de Istambul, que, no fim de semana, se reuniu à população que foi às ruas manifestar sua insatisfação. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

O que a senhora pensa do

projeto de reforma na Praça

Taksim?

Nos últimos 80 anos, a Praça Taksim tornou-se muito mais do que um parque para a população turca. É um centro urbano, um ponto de encontro da sociedade.

Qual é a principal crítica dos urbanistas ao projeto?

A principal crítica com relação ao projeto é que o governo está propondo a privatização desse espaço público ao construir um shopping center. Qual é a ideia por trás disso, já que o shopping não é de interesse público?

Como os protestos começaram?

No primeiro dia, 30 estudantes se manifestaram contra o projeto de destruição do parque. Eles queriam apenas fazer as máquinas pararem, mas foram frontalmente atacados e o parque foi fechado. Desde o segundo dia, nós aderimos. Gente como eu, que vive perto do parque há quase 30 anos, foi para as ruas demonstrar o nosso apoio aos estudantes.

Com a repressão, os protestos ganharam nova dimensão?

Sem dúvida. No início, os protestos ocorreram porque era importante para a cidade manter o parque. Mas, agora, a Praça Taksim tornou-se só um símbolo. É um símbolo contra o governo opressivo do primeiro-ministro. Fomos muito surpreendidos pelos disparos e ataques desde a segunda manhã. Quanto mais atacam, mais fortes ficamos. No segundo dia, éramos mil. No terceiro dia, muitíssimos mais. Não vamos desistir.

A senhora se refere à progressiva "islamização" do país, que muitos criticam?

Sim. Se você me perguntasse há alguns anos se essa islamização estava em curso, eu diria que não. Mas, nos últimos tempos, todos os projetos que têm sido aprovados pelo Parlamento têm algo nesse sentido. Mulheres que não são casadas estão sendo definidas com palavras de sentido pejorativo. Não se pode mais consumir bebidas em público.

Até aqui o governo tinha como grande fator de popularidade o desempenho econômico, certo?

O desempenho da economia tem sido importante, mas o boom econômico não é tudo. Estamos vivendo de crédito fácil e temos muitas dúvidas se o crescimento é sustentável. Além disso, o crescimento não é tudo. Nós precisamos de liberdades políticas e sociais, precisamos de liberdade de expressão. Nos últimos dias, Erdogan fez três discursos públicos afirmando que poderia levar às ruas muito mais pessoas para apoiá-lo. Mas ele está esquecendo que muitos de seus eleitores, que estavam seduzidos pelo boom econômico, agora querem algo mais, querem garantir sua liberdade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.