Quantos camelos vale... um camelo?

A população dos dromedários na Austrália cresce exponencialmente e acompanha o aumento da demanda internacional pelo animal

Juliette Hopkins, International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

A maior população de camelos selvagens do mundo não está no Deserto do Saara. Está proliferando, em liberdade quase total, na terra do canguru.

Interferindo nas espécies nativas, destruindo os recursos alimentares da natureza e causando prejuízos de milhões de dólares para a agricultura, esse bando de camelos - cujo número é estimado em 1,2 milhão - poderá dobrar nos próximos oito a dez anos, de acordo com especialistas.

O governo australiano propõe medidas urgentes para limitar o número desses animais. Para alguns, no entanto, eles não são uma praga, mas um recurso econômico em potencial para a criação de emprego e renda em comunidades rurais. O dromedário fez sua primeira aparição na Austrália em 1840, para auxiliar na exploração das terras áridas do interior. Posteriormente, muitos outros foram importados do Rajastão, na Índia, para serem utilizados como transporte de carga.

Os camelos tornaram possível a construção da linha telegráfica terrestre de 3.200 quilômetros entre Adelaide, no sul da Austrália, e Darwin, ao norte, concluída em 1872. E também a Rodovia Transcontinental de 1.700 quilômetros que vai de Port Augusta, no sul, a Kalgoorlie, a oeste, de 1917.

Mas automóveis e caminhões tornaram os camelos obsoletos. Nos anos 1920, cerca de 20 mil deles foram abandonados no deserto. Seus descendentes se vingaram, multiplicando-se de maneira exponencial.

Hoje a Austrália tem a única população de dromedários do mundo, espalhados por cerca de 3 milhões de quilômetros quadrados, uma área igual a um terço de todo o território dos EUA.

Carne de Camelo. Paddy McHugh, um empresário do Outback australiano, se descreve como "um faz-tudo" em se tratando da indústria dos camelos. Nos últimos 30 anos, ele montou um negócio em torno desses desajeitados gigantes, capturando-os e vendendo-os para a exportação de carne e dos animais vivos, ou para serem usados em áreas de turismo ou para corrida.

Para ele, o plano do governo federal de eliminar 670 mil camelos selvagens nos próximos quatro anos, a um custo estimado de US$ 17 milhões, é ridículo. "Eliminá-los não soluciona o problema porque eles retornarão em dez anos." Ele aposta que, se o governo aplicasse o dinheiro no desenvolvimento dessa indústria, "ela valeria uma fortuna".

Embora o mercado doméstico para produtos derivados do camelo ainda seja limitado na Austrália, a demanda internacional é enorme, diz McHugh. "Nos últimos 18 meses, recebi pouco menos de mil e-mails de 27 países, com pedidos de leite e carne de camelo e de animais vivos para a exportação."

Lauren Brisbane, pesquisadora da Australian Camel Industry Association, confirma: "Recusamos pedidos semanalmente." O maior mercado está no Oriente Médio, onde os camelos são valorizados como gado e sua carne é tradicionalmente considerada uma iguaria. A demanda, segundo Lauren, deve crescer ainda mais. Com alto teor de proteína e o baixo colesterol, "a carne do camelo é muito saudável", explica. "E não há apenas a carne, mas o leite e a lã. Há mercado até para a urina do animal."

De acordo com a Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação, o mercado mundial para leite de camelo pode ser avaliado em US$ 10 bilhões. E o interesse vem aumentando. A Emirates Industry for Camel Milk & Products, com sede em Dubai, já está vendendo para todo o mercado árabe seu leite, que leva a marca Camelicious, e a empresa foi aprovada pelos órgãos reguladores de saúde da União Europeia como a primeira importante fornecedora do leite para a Europa.

Se a Austrália quer transformar os camelos em artigo de exportação lucrativo, a caça selvagem tem de avançar, segundo Lauren, para uma "indústria de camelos domesticados".

Um teste pastoril da gigante da mineração BHP Billiton, que em seu auge estudou um rebanho de 425 camelos perto da Represa Olímpica, no sul da Austrália, revelou que eles provocaram uma redução na difusão de ervas daninhas, que suas patas macias não quebravam a superfície do solo, e que era fácil trabalhar com eles nas instalações usadas para o gado.

Uma indústria de camelos pastoris poderia oferecer uma alternativa ecológica para o plano do governo de abatê-los, proporcionando uma fonte de renda adicional para agricultores e para as comunidades aborígines nas regiões mais remotas do país. Mas o governo não parece muito entusiasmado com a ideia.

Mark Ashley, diretor-geral de desenvolvimento comercial da Ninti One, braço governamental do plano de administração dos camelos selvagens, diz que o maior problema é o transporte. Por causa de seu tamanho, eles só podem ser transportados por veículos de caçamba simples, o que torna seu custo altíssimo.

Além disso, diz Ashley, existe uma falta de instalações de processamento adequadamente localizadas e certificadas para a carne de camelo, prejudicando ainda mais a rentabilidade dos proprietários de terras.

Na Austrália, três empresas operam atualmente o abate de camelos para consumo humano. Ivan Coulter, proprietário da Windy Hills Australian Game Meats, exporta carne de camelo do sul da Austrália há três anos. Ele também diz que melhores condições infraestruturais e abatedores maiores são necessários para que os camelos se tornem, no longo prazo, uma indústria sustentável na Austrália. "Precisamos de ajuda do governo."

Para McHugh, a disponibilidade de recursos de treinamento e informação a respeito da pecuária dos camelos é limitada.

"A educação é a chave para mudar a atitude do governo", diz. "Participo de intermináveis reuniões com representantes governamentais, e eles simplesmente não parecem enxergar a luz no fim do túnel." / TRADUÇÃO

DE TEREZINHA MARTINHO E AUGUSTO CALIL É JORNALISTA ESPECIALIZADA EM TEMAS DE SAÚDE E NUTRIÇÃO

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