Quartéis acatam decisão de líder de evitar confronto

Na avaliação de Evo, eventual derramamento de sangue poderia ser utilizado como peça de propaganda pela oposição

Renata Miranda, Santa Cruz, Bolívia, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2008 | 00h00

A reação contida do governo de Evo Morales à onda de protestos que toma conta da Bolívia obedece à estratégia de evitar o aprofundamenteo da violência, afirmam analistas. Apesar de a situação na maioria dos departamentos (Estados) bolivianos ter chegado a níveis extremos, o Exército permanece aquartelado, sem responder aos grupos que fazem opositores."Tanto o Exército quanto o presidente sabem que só se deve recorrer à força como última opção e esse ainda não é o caso no país", afirmou o cientista político Carlos Cordero, da Universidade Mayor de San Andrés. "Evo não acionou os militares para evitar o derramamento de sangue e deve continuar com essa estratégia por algum tempo." Cordero afirma que o governo deve recorrer às armas somente quando o Estado perder o controle da situação.Um policial de alta patente de Santa Cruz, que não quis se identificar, assegurou ao Estado que o Exército mantém total lealdade a Evo e só não agiu até agora porque não recebeu ordens diretas do presidente.Segundo Cordero, as Forças Armadas da Bolívia mantêm-se institucionalizadas desde o retorno do país à democracia, no começo dos anos 80. Ele explica que essa institucionalidade se fortaleceu quando o partido de Evo - Movimento ao Socialismo - chegou ao poder em 2006. "Evo adotou muitas políticas que beneficiaram os militares e hoje as relações entre o Executivo e o Exército são bastante estreitas."Cordero disse que a parceria com a Venezuela no treinamento de oficiais também fortaleceu os laços entre o governo e as Forças Armadas. Mas, apesar da proximidade entre La Paz e Caracas, o analista Fernando Mayorga, da Universidade Pública de Cochabamba, descartou a possibilidade de Evo lidar com a crise interna boliviana do mesmo modo como o líder venezuelano, Hugo Chávez, respondeu à greve da Petróleos de Venezuela (PDVSA) em 2002.Naquela crise, Chávez ignorou as manifestações dos opositores com o objetivo de desgastar o movimento e jogar a população contra os rivais políticos. "Não podemos comparar o caso da Bolívia com a greve petroleira que Chávez enfrentou, pois na crise venezuelana o problema estava concentrado e na Bolívia temos manifestações espalhadas por vários pontos do país."Embora as manifestações estejam se intensificando em toda a Bolívia, a possibilidade de um golpe militar contra o governo é improvável, afirmou o ex-presidente boliviano Carlos Mesa, que governou o país de outubro de 2003 a junho de 2005. "A maior parte das Forças Armadas apóia Evo e um golpe sem a participação dos militares é improvável", disse Mesa, de La Paz.Mesa também afirmou que a não intervenção dos militares para conter a ocupação dos edifícios públicos, bem como o ataque que provocou a redução na oferta de gás para o Brasil, faz parte da estratégia oficial de evitar confrontos. "O governo não quer usar as Forças Armadas para evitar maiores conseqüências repressoras."Para Mesa, "as regiões estão pressionando o governo para forçar uma reação repressiva que colocaria os opositores como vítima". Mas ele alerta: "Ao não reprimir as ações, La Paz corre o risco de perder o controle da situação."O presidente do Comitê Pró-Santa Cruz, Blanco Marinkovic, no entanto, reitera que o objetivo dos opositores não é derrubar Evo. "Eles estão pedindo autonomia e não a renúncia do presidente." COLABOROU MARINA GUIMARÃES, DA ARGENTINA

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