Quase 2 mil abandonaram guerrilha este ano

Segundo o governo, total de desertores aumentou 70% em relação ao do ano passado

O Estadao de S.Paulo

15 de dezembro de 2007 | 00h00

A guerrilheira Angelly, que seqüestrou um avião para fugir das Farc, é um exemplo do sucesso do governo colombiano em convencer mais rebeldes a se desarmar. Ela integra um contingente de 1.700 guerrilheiros esquerdistas que se desmobilizaram este ano. Segundo funcionários do governo do presidente Álvaro Uribe, o número de guerrilheiros desertores aumentou 70% em relação ao registrado no ano passado. Acredita-se que as Farc tenham entre 10 mil e 15 mil combatentes."Todos os recursos usados para convencer os paramilitares de direita a se desarmar estão sendo redirecionados agora para a guerrilha", disse o coronel Mauricio Luna Jiménez, que dirige o programa de desmobilização do Ministério da Defesa. Para o ex-procurador-geral Jaime Bernal, a intensificação da pressão por parte dos militares desde que Uribe assumiu o governo, em 2002, tornou a vida mais difícil para os rebeldes, obrigados a recuar para bases isoladas na selva e nas montanhas, sob condições de vida miseráveis.O analista político Carlos Eduardo Jaramillo é mais cético com os resultados, citando exemplos passados de "falsos avanços" no processo de desarmamento da guerrilha. Ele cita um caso famoso, no ano passado, quando os militares usaram uma dezena de jovens não combatentes disfarçados de rebeldes desarmados para fazer com que esse plano parecesse mais bem sucedido do que era na realidade. "Mas, no geral, acredito que mais rebeldes estão desertando voluntariamente - e isso porque a guerrilha gastou menos tempo no treinamento político do que deveria."Entretanto, as notícias encorajadoras para o governo sobre o aumento das deserções nas Farc foram ofuscadas no mês passado por um episódio digno das melhores histórias de espionagem. Soldados descobriram que a guerrilheira Marilú Ramírez, de 40 anos, havia conseguido infiltrar-se num curso da Escola de Guerra, exclusivo para coronéis do Exército. Ela só foi desmascarada e presa depois que militares encontraram um laptop com sua identidade durante uma incursão na selva realizada em julho. As informações obtidas no computador forneceram importantes detalhes de como os rebeldes comandavam uma rede de espionagem urbana clandestina. Marilú teria ainda sido a mentora da explosão de um carro-bomba, no ano passado, na academia militar nacional, que feriu 23 pessoas. A guerrilheira, descrita como membro da milícia Rede Urbana Antonio Narino, negou as acusações de espionagem. O ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, disse que ela fazia parte da temida Coluna Teófilo Forero das Farc, que cometeu inúmeros assassinatos e seqüestros de políticos. Marilú teria, supostamente, feito contato com militares quando trabalhava como vendedora de carros e seguros, e usou esses contatos para matricular-se no curso em 2005. Um dos oficiais que recomendaram a espiã foi o general da reserva Manuel Guillermo Franco - que, em 2001, organizou a recepção de 242 membros do Exército, libertados pelas Farc numa troca de prisioneiros. Tempos depois, a guerrilheira foi contratada para trabalhar na prisão de segurança máxima La Dorada, onde estava preso o "chanceler" das Farc, Rodrigo Granda, antes de Uribe libertá-lo em junho.A espiã conseguiu até entrar na residência do ministro da Defesa, depois de tornar-se amiga de uma das empregadas da casa durante um curso noturno. O ministro disse ao jornal El Tiempo que o objetivo de Marilú era conseguir informações para assassiná-lo. "Não há nenhuma dúvida, eles queriam mesmo apagar-me do mapa", afirmou Santos.

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