Quase até o fim, uma fonte de turbulência política

Só no fim de sua vida, em meio a protestos de enriquecimento ilícito e abalado por uma série de doenças degenerativas, Augusto Pinochet Ugarte perdeu a capacidade de levar turbulências à política chilena. Há poucos anos, era pivô de rusgas e ameaças - explícitas ou veladas - entre integrantes da coalizão de governo e comandantes das Forças Armadas chilenas. Os primeiros o viam como um déspota sanguinário, cuja crueldade era comparável à dos mais sórdidos carrascos nazistas. Os últimos, no entanto, consideravam-no um herói nacional, que evitou a conversão do Chile numa ditadura marxista-leninista arquitetada pela ex-União Soviética e orquestrada por Cuba de Fidel Castro.Essa dicotomia divide os chilenos desde 11 de setembro de 1973, quando o ex-aluno medíocre da Escola Militar saiu de seu relativo anonimato para liderar um sangrento golpe militar contra o então presidente constitucional, o socialista Salvador Allende, que acabaria se suicidando em seu gabinete enquanto a sede do governo, o Palácio de La Moneda, era bombardeada pelos militares golpistas. Sob a bota de Pinochet, os esquerdistas chilenos conheceram um aparato de repressão implacável. Nos dias que se seguiram ao golpe, o Estádio Nacional de Santiago transformou-se em campo de concentração.Pinochet tinha 57 anos quando depôs Allende e deixou-se fotografar de óculos escuros, em pose triunfante e ao lado de outros oficiais golpistas, no instantâneo histórico e revelador da arrogância que marcaria seu reinado de terror total, encerrado em 1990, ano em que entregou o poder depois de ser derrotado num plebiscito no qual os chilenos votaram pelo fim do regime militar.?Neste país não se mexe uma palha sem que eu saiba?, costumava dizer Pinochet. Nada indicava que o pouco brilhante ex-cadete fosse capaz de concentrar tanto poder de uma hora para outra. Allende o considerava um legalista - imagem que o próprio Pinochet reforçava com suas manifestações públicas de lealdade ao presidente que deporia mais tarde. Tão eloqüentes eram essas declarações que o presidente acabou por nomeá-lo comandante das Forças Armadas. Pelo erro de avaliação, Allende pagou com o cargo e com a vida. Pinochet, porém, foi o último dos chefes militares a aderir aos planos golpistas. Segundo fontes militares da época, só dois dias antes do ataque a La Moneda ele cedeu às pressões dos comandantes da Marinha, almirante José Toribio Merino, e da Força Aérea, brigadeiro Gustavo Leigh, para que tomasse parte da conspiração contra Allende. Não demorou, no entanto, para transformar-se num ditador personalista apoiado na férrea disciplina prussiana do Exército chileno. No ano seguinte ao do golpe, proibiu seus colegas de junta militar de usar o camarote presidencial do Teatro Municipal de Santiago e a residência presidencial de Viña Del Mar. Pouco depois, livrava-se da junta e assumia, com plenos poderes a presidência da república. O regime fechava-se ainda mais, causando preocupação até em um dos principais sócios no planejamento do golpe contra Allende: a Agência Central de Inteligência (CIA). Documentos revelados pelo Departamento de Estado dos EUA atestam seu envolvimento com a ditadura chilena. A preocupação americana transformou-se em irritação em 1976, quando agentes a soldo da Direção de Polícia Nacional (Dina, a temido polícia política do regime pinochetista) ousaram realizar uma operação que nem os mais destemidos terroristas anti-EUA da época tiveram a coragem de levar adiante: desfechar um atentado à bomba no coração de Washington. Morreram no ataque o chanceler do governo de Allende, Orlando Letelier - ferrenho adversário da ditadura de Pinochet -, e a secretária dele, a cidadã americana Ronnie Moffitt. No ano anterior, outra operação da Dina matara, em Buenos Aires, o antecessor de Pinochet no comando do Exército, general Carlos Prats, e a mulher dele, Sofía. O terror tipo exportação estava ativo como nunca enquanto os órgãos de repressão não paravam de caçar, torturar e assassinar inimigos do regime no território chileno.

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