Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Quase lotado, o cemitério de Arlington pode se tornar mais exclusivo

Para reservar espaço para futuros heróis de guerra nos EUA, o Exército está considerando novas regras que podem excluir muitos veteranos atualmente elegíveis

The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2018 | 18h54

O solene ritual de enterrar com honras militares é repetido dezenas de vezes por dia, faça chuva ou faça sol, no Cemitério Nacional de Arlington. Mas, a fim de preservar a tradição no principal cemitério militar dos EUA para as futuras gerações, o Exército, que administra Arlington, diz que pode ter de negar o benefício a quase todos os veteranos que estão vivos hoje.

Arlington está ficando sem espaço. Lugar de descanso final para mais de 420 mil veteranos e seus parentes, o cemitério tem acrescentado cerca de 7 mil a cada ano. Nesse ritmo,o cemitério estará completamente cheio em aproximadamente 25 anos.

"Estamos literalmente sem saída", disse Barbara Lewandrowski, uma porta-voz do cemitério, enquanto estava no gramado encharcado, onde lápides de mármore seguem até o muro de pedra que separa os terrenos de uma rodovia de seis faixas. Até mesmo essa parede foi colocada em uso, empilhada em três altos com nichos para restos cremados.

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O Exército quer manter Arlington funcionando por pelo menos mais 150 anos, mas sem espaço para crescer - os terrenos são cercados por estradas - a única maneira de fazer isso é restringir significativamente as regras para quem pode ser enterrado lá. Isso provocou um debate difícil sobre o que Arlington significa para os EUA e  como equilibrar os ideais igualitários com os limites físicos do cemitério.

A proposta mais severa que o Exército está considerando permitiria enterros apenas para veteranos mortos em ação ou condecorados com a Medalha de Honra. Sob essas restrições, Arlington provavelmente realizaria menos enterros em um ano do que faz em uma semana hoje.

Uma política como essa excluiria milhares de veteranos de combate e oficiais de carreira que arriscaram suas vidas no serviço e planejavam ser enterrados em Arlington com seus companheiros mortos.

"Eu não sei se é justo voltar atrás em uma promessa para toda uma população de veteranos", disse John Towles, vice-diretor legislativo para os Veteranos de Guerra Estrangeira, que foi enviado para o Iraque e o Afeganistão. O grupo, com 1,7 milhão de veteranos, se opôs veementemente às novas restrições.

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"Deixe Arlington se encher de pessoas que serviram seu país", disse Towles, que é elegível para ser enterrado no cemitério pelas regras atuais porque foi ferido em batalha. “Podemos criar um novo cemitério que, com o tempo, será também tão especial.”

Arlington não é o único lugar para enterros militares, é claro. Existem 135 cemitérios nacionais mantidos pelo Departamento de Assuntos de Veteranos em todo o país. Mas Arlington é de longe o mais importante e a redução do número de enterros significaria transformar um cemitério ativo em algo próximo de um museu.

O Exército está realizando uma pesquisa da opinião pública sobre a questão e espera fazer recomendações formais no outono.

"O que a nação quer que façamos?", disse a diretora executiva de Arlington, Karen Durham-Aguilera, em uma entrevista. "Se o país tem vontade de manter Arlington especial e disponível, temos de fazer alguma mudança."

No início, Arlington era tudo menos um lugar de descanso cobiçado. A maioria dos enterros, no começo, era de soldados comuns cujas famílias não podiam se dar o luxo de mandar seus restos para casa. Mas, como os respeitados agentes da União mais tarde escolheram ser enterrados em Arlington, o cemitério obteve prestígio. O Túmulo dos Desconhecidos foi erguido após a 1.ª Guerra e em quase todos os “Memorial Days” desde então o presidente em exercício coloca uma coroa de flores ali.

Entre as fileiras de calcário estão as lápides do progresso humano: o primeiro explorador a mapear o Grand Canyon, a primeira pessoa morta em um acidente aéreo, os primeiros astronautas a morrer tentando chegar ao espaço. Alguns se distinguiram no campo de batalha, outros na vida posterior, incluindo Albert Sabin, que serviu brevemente como médico do Exército e desenvolveu uma vacina contra a poliomielite, e Oliver Wendell Holmes Jr., um tenente ferido da Guerra Civil que mais tarde se tornou um juiz da Suprema Corte. A maioria teria sido barrada sob restrições agora sendo contempladas pelo Exército.

O conceito moderno de Arlington - um campo igualitário onde generais e soldados estão enterrados lado a lado - não surgiu verdadeiramente até que o cemitério fosse degradado após a 2.ª Guerra, de acordo com Micki McElya, professor de história da Universidade de Connecticut.

"Muitos olham para o local como um caso evidente de inclusão e pertencimento nacional", disse McElya em uma entrevista. Agora, porém, essa ideia de tudo incluso está batendo contra a falta de espaço.

Arlington tentou esticar o espaço que tem. Acabou com a antiga prática de enterrar os membros da família lado a lado e agora os empilha em dois ou três em um único plano.

Sob as regras atuais, os enterros em Arlington estão abertos a veteranos que serviram tempo suficiente para se aposentar do Exército; às tropas que foram feridas em batalha ou receberam um dos três maiores prêmios por valor; aos prisioneiros de guerra; aos militares que morrem enquanto estão na ativa; e para alguns civis que servem em postos governamentais de alto nível. Seus cônjuges e dependentes também são elegíveis.

O Exército apresentou várias propostas para alterar essas regras e manter Arlington aberto por mais tempo, mas apenas as opções mais restritivas surtirão efeito - e essas são as menos populares entre os veteranos.

"Todo mundo quer ver Arlington aberto", disse Gerardo Avila, um veterano ferido do Iraque que falou ao Congresso sobre o assunto em nome da Legião Americana. Ele disse que, embora tenha prazer em abrir mão de seu lugar para garantir uma vaga para um futuro recebedor da Medalha de Honra, a Legião, com 2,3 milhões de membros, não compartilha dessa opinião.

Pesquisas do Exército indicam que o público apoia dar prioridade ao soldados mortos em batalha ou premiados com a Medalha de Honra. Mas não é difícil encontrar túmulos em Arlington de homens e mulheres que merecem, sem dúvida, estar lá e não pertencem a nenhum dos dois grupos.

Em uma noite recente, Nadine McLachlan se ajoelhou diante do túmulo de seu marido, o coronel Joseph McLachlan, para cortar a grama com uma tesoura antes de arrumar um vaso brilhante de lírios. O coronel McLachlan era um piloto de caça que metralhou as praias da Normandia no Dia D. Uma semana após a invasão, ele foi abatido e, apesar de ferido, retornou através das linhas inimigas para a segurança. Ele voou em mais de 100 missões, e foi condecorado com a Legião do Mérito, a Distinguished Flying Cross e 17 Air Medals por atos de heroísmo em vôo.

Ele sobreviveu à guerra e viveu por mais seis décadas, até 2005. Então, sob as propostas mais restritivas, ele não se qualificaria para o enterro em Arlington."Meu Joe era um homem maravilhoso - muito corajoso, muito gentil", disse McLachlan. "Não tenho certeza se é justo cortar homens como ele. Eles estavam na linha de fogo. Ser enterrado aqui com seus amigos significava muito para ele. É realmente um dilema. / NYT

 

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