REUTERS/Kate Dourian
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Quatro anos após morte de Kadafi, sua herança ainda pesa sobre a Líbia

Para especialistas, país levará anos ou décadas para construir uma identidade nacional que não esteja ligada ao legado do ex-ditador

O Estado de S. Paulo

20 Outubro 2015 | 15h54

TRÍPOLI - Quatro anos após a morte do ex-ditador líbio Muamar Kadafi, seu legado ainda pesa sobre o país, assolado pela violência e por lutas pelo poder, e ainda à procura de uma unidade nacional.

"Kadafi construiu um Estado em torno de sua personalidade" durante as quatro décadas que passou no poder", explica Michael Nayebi-Oskui, especialista em Oriente Médio no centro de reflexão americano Stratfor.

Ele "usou o dinheiro do petróleo para financiar um aparato repressivo destinado a esmagar toda a oposição, ao invés de construir instituições sólidas do Estado que poderiam sobreviver a ele", afirma.

"Vai levar anos ou décadas para que a Líbia possa construir uma identidade nacional."

Capturado e morto em 20 de outubro de 2011, após oito meses de conflito desencadeado por uma revolta popular, Kadafi governou o país com mão de ferro depois de tomar o poder em 1969 por meio de um golpe de Estado, abolindo o regime monarquista até então apoiado pelo Ocidente.

Desde sua morte, o país, de estrutura predominantemente tribal, está mergulhado no caos com disputas entre grupos armados rivais e autoridades pelo poder, apesar dos esforços das Nações Unidas para formar um governo de unidade nacional.

Em agosto de 2014, a capital Trípoli caiu nas mãos de milícias, algumas das quais islâmicas, que estabeleceram uma autoridade paralela à autoridade reconhecida pela comunidade internacional, forçada a fugir para o leste, em Tobruk.

Aproveitando o vácuo político e a insegurança, o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) também se estabeleceu no país neste mesmo ano.

De A a Z. A Líbia também se tornou o playground favorito de traficantes sem escrúpulos, que organizam por enormes somas partidas para a Europa de milhares de migrantes, em sua maioria africanos, em embarcações frágeis, contribuindo para tornar o Mediterrâneo um vasto cemitério.

"Tudo o que Kadafi deixou para trás é corrupto: política, economia, sociedade e até mesmo o esporte. As leis, as regras de funcionamento (impostas por Kadafi) precisam ser mudadas de A a Z", dizem autoridades do governo paralelo em Trípoli.

"Ele jogou tribos locais e grupos étnicos uns contra os outros, o que explica a dificuldade para os líbios definirem atualmente uma identidade nacional", analisa Nayebi-Oskoui. 

O especialista prevê que "o nome de Kadafi permanecerá onipresente, particularmente por conta do julgamento de seus parentes e dos eventos relacionados a ele como o atentado de Lockerbie". / AFP

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