Quatro anos depois, metas de diplomacia são mais modestas

Cenário: David E. Sanger / NYT

É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2013 | 02h10

Barack Obama tinha menos de seis meses na presidência quando acordou com a notícia de que havia sido laureado com o Prêmio Nobel da Paz. Suas credenciais eram promessas: encerraria a guerra no Iraque, venceria "a guerra por necessidade" no Afeganistão, adotaria medidas para eliminar as armas nucleares, atacaria o problema das mudanças climáticas e procuraria se aproximar dos adversários.

Com exceção feita ao Iraque, suas realizações foram esparsas. Num mundo dividido, Obama lutou para definir uma grande estratégia para afirmar o papel dos EUA, além de preservar sua proeminência e, ao mesmo tempo, depender cada vez mais de um elenco de parceiros em constante mutação.

Agora que o presidente inicia seu segundo mandato, assessores e amigos mais próximos afirmam que ele está muito ciente de que seu ambicioso programa para recuperar a influência e a imagem dos Estados Unidos no mundo sofreu uma paralisação logo que o prêmio foi concedido. O presidente sugeriu que pretende voltar a seu programa original, contudo deu a entender que o fará de um modo diferente, menos ambicioso.

Experiências amargas o empurram para uma estratégia que lembra a adotada por um dos seus predecessores republicanos, o presidente Dwight D. Eisenhower. É um enfoque por meio do qual Obama tentará reorientar os eventos mundiais sutilmente, em vez insistir em grandes tratados, grandes intervenções militares e grandes pacotes de ajuda. Se essa estratégia vai funcionar, não se sabe.

Suas primeiras incursões em ações secretas e ataques-relâmpago, como na Líbia, ou a guerra cibernética contra o Irã, provocaram um recuo dos adversários, mas a satisfação por isso, no melhor dos casos, foi temporária.

Suas promessas de mudanças transformadoras são vistas hoje no mundo com mais desconfiança. Há um ano, por exemplo, um estudante na Praça Tahrir aproximou-se de um jornalista e perguntou por que a prisão de Guantánamo estava aberta.

As questões levantadas por Obama durante as reuniões na Casa Branca, segundo seus atuais e antigos assessores, parecem refletir a preocupação de que seu primeiro mandato foi gasto apagando incêndios, sem criar instituições duradouras.

Se existe uma grande aposta estratégica de Obama neste segundo mandato, ela pode estar na Ásia. A enorme e inesperada explosão na produção de gás e petróleo nos Estados Unidos fortaleceu a convicção de Obama de que o país tem a oportunidade de se libertar da dependência excessiva dos eventos no Oriente Médio.

Descobriu que a Ásia é uma região mais receptiva à influência dos americanos, em grande parte porque uma maior presença dos Estados Unidos - que significa mais navios e mais investimentos - pode contrabalançar o poder crescente da China.

Ao mesmo tempo, aqueles que trabalham com Obama e analisam as questões por ele propostas nos debates sobre a capacidade de os Estados Unidos influírem nos acontecimentos verificados na Síria, Mali ou Coreia do Norte, dizem que o presidente está hoje mais consciente do que há quatro anos dos limites da influência americana.

Esse é o resultado da amarga experiência de Obama em 2009, quando acatou o conselho do Exército para enviar um reforço de dezenas de milhares de soldados para o Afeganistão. Ele lamentou a decisão quase que instantaneamente.

Uma outra estratégia foi adotada no caso afegão, com metas mínimas e uma retirada mais rápida das tropas. Mas, desde então, ele tem hesitado em usar o poder tradicional à maneira tradicional.

A cautela de Obama implicou um custo. Para grande parte do mundo, sua presidência foi o contrário do que esperavam. Ele prometeu um "entendimento direto" com adversários antigos, como Irã, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela e Mianmar. Mas somente os generais que governam o Mianmar responderam às suas cartas, os incentivos econômicos e as ofertas de uma aproximação.

Diante da composição do Senado, não é provável que projetos audaciosos sejam aprovados num segundo mandato. Portanto, dizem os assessores de Obama, ele terá de encontrar uma outra maneira. Como Eisenhower, terá de reorientar a política dos Estados Unidos discretamente, a partir do Salão Oval. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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