Quatro etapas para a reconciliação afegã

STEPHEN J. HADLEY

STEPHEN J. HADLEY, ANDREW WILDER, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2015 | 02h02

ANDREW WILDER

THE WASHINGTON POST

O s terríveis bombardeios em Cabul nesta semana, que mataram e feriram centenas de civis, constituem um triste lembrete de que o Afeganistão se depara com enormes desafios. Mas uma recente visita de dez dias a essa região nos convenceu de que há também uma real possibilidade de um caminho para a paz. Talvez a questão mais preocupante, segundo autoridades paquistanesas e afegãs é o fato de o Afeganistão ter se tornado novamente refúgio de grupos terroristas, incluindo o Estado Islâmico.

Com grande parte da região mergulhada no caos, poucos aliados dos EUA têm vontade política, apoio da sociedade e forças terrestres para combater terroristas. O Afeganistão é uma surpreendente exceção. As transições observadas no ano passado na área política e da segurança deram origem a um governo de unidade reformista e a tarefa bem-sucedida de proteção do país assumida pelas forças afegãs.

Mas a retirada simultânea de mais de 120 mil soldados das forças da coalizão internacional e a redução drástica da ajuda civil e militar externa provocaram uma severa crise econômica. As operações militares do Paquistão no Waziristão do Norte levaram milhares de militantes radicais para o outro lado da fronteira, num momento em que as forças afegãs não tinham a mínima capacidade para enfrentá-los. Muitos combatentes se estabeleceram no norte do Afeganistão.

A corajosa iniciativa do premiê Ashraf Ghani de se aproximar do Paquistão melhorou muito as relações entre os dois países, pelo menos até os ataques do fim de semana passado. O encontro mais recente, em julho no Paquistão, tendo China e EUA como observadores, pode se tornar um processo de reconciliação amplo. Acreditamos que a luta de poder dentro do Taleban e os recentes ataques devem retardar o andamento das discussões, talvez por alguns meses, mas não destruíram as chances de diálogo.

O Paquistão parece reconhecer agora que necessita de um Afeganistão estável que não seja refúgio dos terroristas. Mas, evidentemente, o Paquistão deseja controlar o processo de reconciliação e manter sua influência sobre o Taleban. Os afegãos acreditam, com alguma razão, que o Paquistão dobrou seu apoio material ao Taleban para se proteger no caso de uma reconciliação e fortalecer sua situação na mesa negociadora. Assim, perversamente, as perspectivas de paz e o ritmo do conflito aumentaram simultaneamente. O Paquistão vem pressionando o Taleban no sentido da reconciliação.

O anúncio da morte do mulá Omar, líder do Taleban - dois anos após o ocorrido - não só exacerba as divisões, mas também corrói a legitimidade do movimento, levantando dúvidas quanto a se o Taleban não seria apenas um agente do Paquistão. E com a chegada do Estado Islâmico, entra em cena um rival potencialmente perigoso. O governo afegão deve se aproveitar disso e renovar seu apelo para o Taleban abandonar a insurgência e se reconciliar.

O sucesso dependerá amplamente do comportamento do governo de unidade afegão. Mas os EUA e outros países amigos podem adotar algumas medidas que deem tempo ao governo afegão para pressionar o Taleban.

É necessário aumentar a pressão diplomática americana e internacional sobre o Paquistão para reunir todos os elementos do Taleban na mesa de negociação e firmar um acordo de paz com o Afeganistão.

Além disso, deve-se fornecer um incentivo econômico no curto prazo que deve se concentrar na criação de emprego combinada com reformas pelo governo. É essencial continuar com a atual ajuda financeira fornecida às forças de segurança afegãs e, ao mesmo tempo, ampliar o treinamento, aconselhamento e assistência.

Por fim, é preciso desenvolver uma plataforma contra o terrorismo no país, apoiada por um serviço americano de inteligência, vigilância e reconhecimento - e apoio aéreo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

HADLEY É EX-ASSESSOR DE SEGURANÇA NACIONAL DO PRESIDENTE GEORGE W. BUSH; WILDER É DIRETOR DO PROGRAMA PARA PAQUISTÃO E AFEGANISTÃO DO INSTITUTO PARA A PAZ DOS EUA

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