Anatoli Stepanov/EFE
Anatoli Stepanov/EFE

Quatro maneiras de impedir Putin de invadir a Ucrânia; leia a análise

Ocidente precisa combinar inteligência, ciberespionagem, pressão econômica e ajuda militar à Ucrânia para deter avanço russo

James Stavridis*/ Bloomberg, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2021 | 05h00

Quando me tornei comandante supremo da Otan, em 2009, a aliança atlântica estava focada na Guerra do Afeganistão. Mas uma das primeiras delegações sêniores com a qual conversei queria discutir a Rússia. Eram os comandantes militares da Estônia, Letônia e Lituânia. Nunca me esqueci do tom em suas vozes quando eles descreveram a malevolência do presidente russo Vladimir Putin

Eles tinham uma visão privilegiada, já que ascenderam nas Forças Armadas enquanto seus países ainda eram parte da União Soviética. Os três argumentaram que a invasão russa da Geórgia, em 2008, eram um ensaio para futuras operações contra democracias vizinhas à Rússia. Então, redesenhamos nossos planos de guerra para lidar com essa possibilidade e aumentamos de maneira significativa o nível de auxílio americano à Europa Oriental.

À época, senti que a Ucrânia era um alvo possível, já que era um parceiro próximo da Otan, ainda que não um membro efetivo. Então, em 2014, Putin anexou a Crimeia. Sete anos depois, Putin mais uma vez se prepara para atacar a Ucrânia, enquanto procura romper totalmente suas relações com o Ocidente. 

Quais são as melhores ferramentas que o Ocidente pode usar para detê-lo?

1 - Inteligência militar

A primeira é inteligência e comunicação estratégicas. Reunindo informações de todo tipo de fonte – humana, eletrônica, etc...– , organizando-as de maneira coerente e informando-as ao público, os Estados Unidos podem reunir uma coalizão com o objetivo de novas e mais fortes punições. 

Enquanto o governo americano não pode revelar suas fontes, nem seus métodos, pode divulgar detalhes de relatórios não sigilosos. Fotos de tropas e equipamentos militares russos valem mais que mil palavras. 

2- Ciberespionagem

A segunda é a guerra cibernética. A Agência de Segurança Nacional (NSA) e o Comando Cibernético dos EUA com toda certeza estão investigando o sistema de comando e controle das forças de invasão russas. Apesar disso, atuar em segredo total não é conveniente. Os russos precisam “ver” os americanos atuando nesse front, sem que os EUA mostre tudo que é capaz. Isso ajudará os russos a entenderem que a invasão será fácil. Os russos usaram ciberataques de maneira muito eficiente na Ucrânia e na Geórgia. Agora, precisam saber que já não têm mais essa vantagem. 

3- Pressão econômica

A terceira estratégia é econômica. É verdade que sanções anteriores não dissuadiram Putin. Mas em uma reunião de duas horas com o líder russo na terça-feira, o presidente Joe Biden alertou para “medidas econômicas e de outra natureza muito fortes” em caso de uma escalada militar. Elas deveriam incluir passos adicionais por todas as democracias ocidentais contra os aliados mais próximos de Putin: bancos estatais e o setor de óleo e gás – ainda que isso seja difícil dada a dependência energética da Europa junto à Rússia. Sanções secundárias contra empresas que fazem negócios na Rússia também ajudariam a tirar Putin da economia global. Finalmente, o governo americano deveria considerar tirar os russos do sistema de pagamentos internacional Swfit – usado por bancos no mundo todo– uma sanção que devastou a economia iraniana dez anos atrás.

4- Ajuda militar

Em termos de ajuda militar à Ucrânia, o Pentágono deu a Biden um cardápio significativo: sistema antimísseis letais, peças de artilharia móvel e drones de ataque, além de suporte logístico. O Departamento de Defesa pode ainda ceder um sistema antiaéreo para conter armas russas mais modernos. Tudo isso combinado com treinamento de oficiais americanos. 

Por fim, Putin tem ojeriza à ideia de tropas ocidentais perto de sua fronteira. Ele pede que a Otan desista de expandir para o leste para interromper a atual escalada. O ocidente não deve cair nessa. Putin deve ser alertado de que uma invasão terá o efeito oposto,com um aumento sensível da presença americana no Báltico, na Polônia, na Romênia e na Bulgária. Outra forma de pressão é começar a patrulhar o Mar Negro com destroieres que atualmente estão ancorados na Espanha. 

Putin já passou do ponto da ameaça, ainda que a probabilidade de um ataque antes do fim do ano seja baixo. Ele já invadiu seus vizinhos duas vezes nos últimos 13 anos. Deixá-lo fazer isso outra vez pode  ser um retrocesso de décadas.  

*É almirante aposentado e ex-comandante da Otan

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