Aris Messinis/AFP
Aris Messinis/AFP

Quatro meses após a guerra entre Azerbaijão e Armênia, como vivem os deslocados de Nagorno-Karabakh

Entre os moradores do enclave refugiados na Armênia, muitos agora temem nunca mais poder voltar para suas casas

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 15h00

EREVAN - A 200 quilômetros de sua terra, parentes, amigos e vizinhos de Arman Sarkisian, que morreu há três meses em Nagorno-Karabakh, se reúnem em um cemitério militar de Erevan para um último adeus, dois dias depois que seus pais identificaram seu corpo.

Hadrut, uma pequena cidade de 4 mil habitantes de onde todos eles vieram, ficou sob o controle do Azerbaijão após a derrota da Armênia na guerra de setembro a novembro pelo controle deste enclave separatista.

Para se reunir e se despedir do jovem de 20 anos, cujo corpo foi entregue recentemente, só tinham esse cemitério com vista para a capital armênia, longe de sua Hadrut natal.

"É aqui que as pessoas se reúnem agora. No funeral de nossos filhos", lamenta Margarita Karamian. Atrás dela, a música de uma banda militar cobre os soluços de homens e mulheres de luto. "Sua família também gostaria de enterrá-lo em Hadrut, mas agora isso é impossível", acrescenta a mulher de 58 anos.

Entre os moradores de Nagorno-Karabakh refugiados na Armênia, muitos como ela agora temem nunca mais poder voltar para suas casas.  O cessar-fogo, assinado após seis semanas de combates sob mediação de Moscou, concedeu ganhos territoriais significativos a Baku em uma região marcada pela primeira guerra da década de 90, que deixou centenas de milhares de refugiados.

Prefeito sem cidade 

No outono, Margarita Karamian e o restantes dos habitantes de Hadrut fugiram com algumas roupas, deixando para trás suas casas e quase todos os seus pertences. 

Agora, vive com o marido, o filho e a família deste último em um apartamento que eles alugam em Erevan. E todos devem aprender a começar do zero. "No início, pensávamos que sairíamos apenas temporariamente", acrescenta Karamian. 

A maioria se instalou em ou ao redor de Erevan. Alguns decidiram viver em Nagorno-Karabakh, em territórios ainda sob o controle da Armênia, mas outros emigraram para a Europa ou a Rússia. 

Embora o governo armênio conceda ajuda mensal aos deslocados, Margarita Karamian teme que isso não vá durar. "Vivemos na incerteza. Não sabemos o que o futuro nos reserva", confessa.

Vajan Savadian, de 35 anos, tornou-se prefeito sem cidade. Apesar de ainda ser o responsável pela administração local, a cidade está dividida entre Erevan e Stepanakert, capital da autoproclamada república de Nagorno-Karabakh, localizada em território azerbaijano. 

Savadian passa seu tempo tentando encontrar acomodação permanente para seus antigos vizinhos, agora espalhados. "É difícil, mas temos de nos adaptar e não perder a esperança, continuar avançando", explica.

'Esperar e desejar'

Em uma residência estudantil pertencente à principal universidade de Erevan, nos arredores da cidade, os deslocados ocupam quatro andares inteiros. 

Devido à pandemia do coronavírus, muitos quartos estavam vazios e os cursos eram virtuais quando chegaram, mas agora as aulas devem ser retomadas e o espaço está diminuindo.

Três gerações da família Saakian vivem em dois quartos. "Em Hadrut, tínhamos uma casa, um terreno, um jardim... tudo", diz Arman Saakian, de 35 anos, que só levou o passaporte, seu telefone e um cobertor para as crianças ao fugir das tropas do Azerbaijão.

"Não estamos com raiva por termos que deixar nossos bens. Estamos com raiva porque deixamos nossa terra ancestral, os túmulos de nossos avós", assegura a irmã de Arman, Maria Petrosian. 

Para esta mulher de 38 anos, a prioridade agora é encontrar um novo lar para sua família na Armênia, sem nunca esquecer seu vilarejo de Nagorno-Karabakh. "Não sabemos se um dia será possível (voltar). Só podemos esperar e desejar", explica a mulher. "Se for possível, o faremos com prazer."/AFP 

 

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