EUTERS/Dado Ruvic
EUTERS/Dado Ruvic

Que 2017 seja um ano contra a ‘pós-verdade’

Empresas jornalísticas já estabelecidas e novos meios tecnológicos precisam se unir no combate ao discurso populista e mentiroso

Timothy Garton Ash / Especial, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2017 | 05h00

Na era da internet, nada se propaga mais rápido que um clichê da moda. Hoje, nenhum discurso é completo sem uma referência aos nossos tempos de “pós-verdade”. Como se até ontem a água pura da verdade fluísse incessantemente dos lábios de políticos e noticiaristas de TV, sem mencionar Joseph Goebbels, Joseph Stalin e as grandes mentiras totalitárias dissecadas por Alexander Soljenitsyn e George Orwell. O novo perigo é melhor descrito por um adjetivo mais modesto, o “pós-fato”.

A essência da ameaça do pós-fato à democracia é que afirmações inteiramente falsas encerradas em histórias emocionalmente atraentes e constantemente amplificadas online parecem ter adquirido o poder de convencer uma parte significativa do eleitorado. Um discurso apaixonado prevalece sobre a dura realidade, o sentimento domina a razão. 

Mas não há razão para desespero. Se Orwell e Soljenitsyn não se renderam face a Goebbels e Stalin, seria patético sucumbirmos agora. Há inúmeras maneiras de combater a ameaça e fazer de 2017 um ano contra o pós-fato.

A verificação da verdade do fato já tem um papel importante no noticiário político e nas práticas online cotidianas. Existem fundações filantrópicas que financiam o jornalismo investigativo sério. Empresas jornalísticas estabelecidas como o New York Times e Der Spiegel têm mantido sua credibilidade online, ao passo que novos sites de curadoria de conteúdo rapidamente estão ficando cada vez mais confiáveis. Países com emissoras de serviço público como a BBC necessitam se aferrar a eles para sua sobrevivência.

As empresas de tecnologia devem monitorar e filtrar o que são realmente notícias falsas divulgadas amplamente por robôs direcionados da Rússia de Vladimir Putin ou sites de spam que operam simplesmente para lucrar com a propaganda online.

Graças à disponibilidade de material da internet, está mais fácil para cidadãos vigilantes checarem os fatos sobre muitos assuntos. O desafio para o profissional e a empresa jornalística é apresentar esses fatos a pessoas que se tornaram presas dos discursos populistas emocionalmente empolgantes. 

Importante também é reconhecer a responsabilidade pública das que chamo “superpotências privadas”. Google, Facebook e Twitter têm sido apelidadas de Espaços Públicos de Propriedade Privada. Mas elas fazem mais do que apenas fornecer o tijolo para pavimentar a praça pública global. O algoritmo do Facebook determina a seleção das notícias vistas por centenas de milhões de pessoas diariamente.

É um poder extraordinário. Até recentemente, as gigantes da internet relutavam em assumir essa responsabilidade. Preferiam se apresentar como intermediárias neutras, dedicadas apenas a oferecer “a melhor experiência”. Felizmente, isso está começando a mudar. 

Com 2016 chegando ao fim, Mark Zuckerberg postou uma mensagem no Facebook afirmando que “somos um novo tipo de plataforma para o discurso público e isso significa que temos uma nova responsabilidade”. Agora, usuários podem informar sobre uma notícia falsa e, se uma terceira organização dedicada a checar os fatos concordar, o material será assinalado como problemático. O Facebook também tentará evitar que notícias falsas sejam exploradas para publicidade. Zuckerberg também fez algumas promessas ligeiramente vagas de alterações do algoritmo. 

Mas como podemos monitorar o funcionamento do algoritmo se apenas o Facebook tem acesso a todos os dados? O grande poder da rede social, como todos os outros tipos de poder, deve ser examinado minuciosamente, mas devemos ter cuidado com o que queremos: Zuckerberg está certo quando diz que o Facebook não pode se tornar um “árbitro da verdade”. Ele pode, no entanto, ser um parceiro indispensável no combate à mentira descarada.

Mais racionais depois de décadas de mentiras totalitárias, manipulações políticas e o desafio do pós-fato, não devemos mais compartilhar da fantástica autoconfiança de John Milton que, ao escrever sobre a verdade, afirmou: “deixe que ela (a verdade) e a mentira entrem em confronto porque numa luta aberta e justa a verdade vence sempre”. Mas podemos fazer muita coisa para tornar essa luta justa e aberta. / TRADUÇÃO DE TEREZA MARTINO 

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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