Que há na Coreia do Norte?

O que se passa em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, a última ditadura comunista no mundo? As tentativas de penetrar os segredos desse país esbarram numa dupla dificuldade: primeiro, as monarquias do Extremo Oriente envolvem todos seus atos em encenações opacas. No antigo império chinês, o imperador, invisível, distribuía ordens detrás de uma cortina. Depois, Pyongyang é uma ditadura sem imprensa e isolada.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2012 | 03h06

Uma notícia difundida esta semana por Pyongyang chamou a atenção: o vice-marechal Ri Yong-ho, chefe do Estado-Maior do Exército, desapareceu repentinamente de cena por "motivo de saúde". Não era um qualquer: homem forte do Exército (e o Exército é a ossatura do poder na Coreia do Norte), ele foi um dos "mentores" do novo chefe do país, o jovem Kim Jong-un, que sucedeu a seu pai, Kim Jong-il, há oito meses.

Ri acompanhava Kim Jong-un a toda parte. Seu desaparecimento provaria que o novo presidente quis se libertar de uma tutela decidida por seu pai? Tese ainda mais aventurosa: o jovem Kim Jong-un se sentiria bastante forte para substituir a influência do Exército pela do Partido Comunista?

E tem a mulher. Que mulher? Uma misteriosa vista ao lado de Kim Jong-un dia 9 em um espetáculo para glorificar Mickey Mouse e o Ursinho Pooh, festa surpreendente porque, até agora, Walt Disney era "símbolo da poluição capitalista". Quem era aquela dama? A irmã de Kim Jong-un? Sua amante? Sua mulher? O certo é que o visual dessa mulher é inédito. Vestida à moda da China, de saia curta (não míni, não é o caso de exagerar), sapatos com saltos plataforma, cores vibrantes. Uma revolução parecida se nota nas ruas de Pyongyang. As mulheres norte-coreanas parecem sair de uma crisálida sombria e rugosa para mostrar silhuetas novas e frescas.

As novidades levam especialistas, geralmente distantes (em Seul ou Tóquio), a formular hipóteses. Koh Yu-hwan, da Universidade Dongguk, na Coreia do Sul, imagina Kim Jong-un em uma espécie de "glasnost" (transparência) como fez outrora Gorbachev na União Soviética, o que, aliás, provocou uma rápida decomposição do colossal império comunista.

Não chegaremos a isso. Nada, nos discursos oficiais, sustenta essa proposição. Mesmo que as jovens de Pyongyang tinjam os cabelos e ouçam os videoclipes açucarados da Coreia do Sul, enquanto seus camaradas raspam as cabeças para imitar os gângsteres do sul, a Coreia do Norte, quando se mexe, é muito devagar.

É razoável pensar que a destituição de Ri traz mudanças de tática e não uma subversão profunda do país. Ri é um "falcão". Ao se livrar dele, Kim Jong-un talvez queira desencalhar a diplomacia norte-coreana. Com isso, teria margem antes de voltar à mesa de negociações após as eleições sul-coreanas e americanas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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