Que venha a próxima maratona. Terroristas vivem em cavernas

Análise: Thomas L. Friedman / NYT

É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2013 | 02h05

Diante das cenas na calçada de Boston pouco após as explosões de segunda-feira - roupas rasgadas, manchas de sangue, estilhaços de vidro - lembrei de uma calçada semelhante de Tel-Aviv, em setembro de 2003. Um suicida do Hamas se explodira num ponto de ônibus, em frente à base militar de Tsrifin, e, por coincidência, eu estava nas proximidades e fui lá para testemunhar as consequências imediatas. Como escrevi na época, pedaços do corpo do terrorista ainda estavam espalhados pela rua, incluindo sua perna peluda. Seu sapato havia explodido, mas sua meia marrom ainda cobria delicadamente o pé. Os socorristas israelenses calmamente carregavam os mortos em macas, numa estranha mistura de horror e rotina. Mas o que lembro mais claramente é algo que o porta-voz da polícia me disse: "Toda essa área será limpa em duas horas. Pela manhã, o ponto de ônibus já estará reconstruído. As pessoas nunca saberão que isso aconteceu".

Ainda não sabemos quem detonou as bombas na Maratona de Boston, nem seu motivo. Mas agora, depois do 11 de Setembro, depois de todo o terrorismo que o mundo testemunhou na última década, sabemos qual é a reação correta: lavar a calçada, limpar o sangue e fazer com que, embora quem cometeu esse ato tenha aleijado e matado nossos irmãos e irmãs, ele não deixou traços em nossa sociedade ou nosso modo de viver. Os terroristas não são fortes o suficiente para fazer isso - somente nós podemos fazê-lo - e jamais deveremos ceder às suas demandas.

Portanto, consertaremos imediatamente a calçada e as janelas, taparemos os buracos e não deixaremos nenhum sinal - nenhum altar, nem flores, estátuas, nem placas - e a vida voltará ao normal o mais rapidamente possível. Desafiemos os terroristas não permitindo que eles deixem a menor marca que seja nas nossas ruas e honremos os mortos santificando nossos valores, reafirmando a vida e todas as coisas que nos fortalecem e nos aproximam uns dos outros enquanto nação.

Daremos a um playground ou a uma escola o nome de Martin Richard, o menino de 8 anos que estava na linha de chegada e correu para abraçar o pai, Bill, depois que ele completou a corrida e, então, confiante, voltou para a calçada onde estavam a mãe e a irmã, quando a bomba explodiu entre eles. Façamos doações às instituições de caridade favoritas das outras vítimas. Trabalhemos para a recuperação dos feridos. Mas, na aprazível Rua Boylston de Boston, um lugar normalmente cheio de vida, não deverá ficar a menor lembrança desse "hediondo e covarde ato" de terror, como o definiu o presidente Barack Obama.

E, enquanto isso, marquemos a data de outra Maratona de Boston o mais cedo possível. Viver em cavernas é coisa de terroristas. Os americanos? Nós corremos ao ar livre nas nossas ruas - homens e mulheres, jovens e velhos, novos imigrantes e estrangeiros, de shorts, não de armadura, aproveitando a vida sem jamais ter medo, de olho no prêmio e nunca em embrulhos "suspeitos" deixados na sarjeta. No mundo de hoje, às vezes pagamos pela ingenuidade típica dos americanos, mas os benefícios - poder viver numa sociedade aberta - sempre superam os custos.

Os terroristas sabem disso, claro, e se aproveitam disso. Os explosivos foram postos em panelas de pressão, guardadas em sacolas de lona e deixadas no chão. Esta é a assinatura do terrorismo moderno: o uso de objetos corriqueiros para fazer bombas - o sapato, a mochila, o carro, o celular, o laptop, o controle remoto da garagem, fertilizantes, impressoras, panelas de pressão -, de modo que tudo se torne fonte de suspeita.

Isso poderá representar uma ameaça muito maior para nossa sociedade aberta do que o Exército soviético jamais foi - se assim permitirmos -, pois esse tipo de terrorismo ataca o elemento essencial que mantém aberta uma sociedade aberta: a confiança. A confiança é a base de todos os aspectos, todos os edifícios, toda interação e todas as maratonas em nossa sociedade aberta. Os terroristas podem roubá-la por um instante ou mesmo algum tempo, mas jamais permitiremos que eles a desgastem. Quando você assistir ao vídeo dos instantes seguintes às explosões, repare quantas pessoas correram para ajudar, embora mais bombas pudessem facilmente ter sido armadas para explodir no mesmo lugar.

Felizmente, já não nos assustamos facilmente. Pudemos sentir isso em todo o país na manhã da terça-feira. Sobrevivemos ao 11 de Setembro. Provavelmente, naquela época nossa reação terá sido exagerada, mas isso não voltará a acontecer. Descobrimos Bin Laden graças ao trabalho de investigação e inteligência: faremos o mesmo neste caso. Mas, enquanto isso, mesmo nesta era de terrorismo, teremos sempre em mente o conselho de um anúncio pendurado numa janela da Rua Boylston que estava numa foto tirada após a explosão. A imagem mostrava um maratonista vasculhando malas abandonadas pelos competidores. Atrás dele, na janela, o cartaz diz: "Seu lar deveria ser um lugar para repousar".

Só nós podemos tirar isso de nós mesmos - não algum terrorista num ataque vil de loucura. Por isso, abrace seus filhos, mas também os encoraje a começar a treinar para a próxima maratona amanhã. Agora me ocorre que, talvez, devamos fazer com que esta maratona seja mais longa - de Boston ao World Trade Center e ao Pentágono - para nos lembrarmos e recordar ao mundo o que precisa ser lembrado: Esta é nossa casa. Pretendemos repousar aqui. E não temos medo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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